Ciência das selfies, Brasil e Coréia se unem para entender o fenômeno

Pamela Gouveia | 08 de julho de 2016

selfie-931908_960_720Pesquisadores indicam relação entre quantidade de fotos e perfil cultural e social de um país

Por que as pessoas tiram cada vez mais selfies? Quem tira mais, homens ou mulheres? Pesquisadores brasileiros e coreanos decidiram investigar, retirando do Instagram um enorme volume de dados sobre gênero, localização e repercussão dessas imagens entre outros usuários. Depois, cruzaram essas informações com indicadores sociais, o que revelou dados surpreendentes e até contraditórios.

Flávio Souza, Diego de Las Casas, Vinícius Flores e Virgílio Almeida, pesquisadores do Departamento de Ciência da Computação, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e SunBum Youn, Meeyoung Cha e Daniele Quercia, da Korea Advanced Institute of Science and Technology, publicaram os resultados do estudo “Dawn of the Selfie Era: The Whos, Wheres, and Hows of Selfies on Instagram”, no final de 2015 no arXiv da Universidade de Cornell, nos EUA. O repositório é um famoso acervo de artigos científicos eletrônicos pré-impressos de ciências exatas, principalmente da computação.

Os pesquisadores confirmaram, por exemplo, o resultado de outros estudos sobre os jovens e, sobretudos, as mulheres serem as que mais tiram selfies, mas acrescentaram que elas fazem mais fotos de si mesmas em países com mais igualdade de gênero. Na Nigéria e no Egito, por exemplo, os homens estão na maioria das selfies.

Esse resultado contrasta com outro dado apresentado pelos estudiosos: as selfies são instrumentos de empoderamento no sentido inverso, ou seja, são menos comuns em sociedades em que os indivíduos confiam mais uns nos outros e nas instituições e se sentem mais livres, e mais frequentes em países pouco liberais e instáveis politicamente. “A falta de liberdade individual e autonomia em vez de limitar as selfies, as estimulam”, afirma o artigo. “As selfies são uma ferramenta de controle sobre a identidade individual, então elas são mais importantes em lugares onde os cidadãos sentem que precisam disso.”

Os pesquisadores também quiseram saber se os “cidadãos do mundo”, isto é, pessoas que vivem em grandes cidades e sociedades mais cosmopolitas, ou os indivíduos mais “provincianos”, aqueles que moram em municípios pequenos ou vilarejos, tinham alguma diferença de comportamento em relação às selfies, mas o resultado mostrou que não. Em lugar disso, o estudo verificou que usuários com laços comunitários mais fortes, os que frequentam religião, escola, grupo esportivo, por exemplo, tendem a tirar mais fotos de si.

“Uma parte do que leva às selfies é uma atitude ou um conjunto de valores que busca um empoderamento, mas também promove falta de confiança, sensação de falta de controle e aversão às incertezas. Infelizmente nós não conseguimos diferenciar esse dois cenários em nossa pesquisa”, explicam os autores. Eles afirmam que pesquisas futuras podem esclarecer sobre esse ponto e sobre a relação das selfies com sentimentos, por exemplo, combinando diferentes métodos de análises em dados de comentários, forma como foi tirada a foto e hashtags relacionadas.

Fim das selfies?

O estudo também comprova o que outras análises já indicavam sobre a repercussão das selfies: há uma grande homofilia entre os usuários, isto é, uma tendência maior das fotos receberem curtidas dos usuários do mesmo sexo, região e da mesma faixa etária.

De acordo com o levantamento, esses autorretratos aumentaram 900 vezes em dois anos (2012 a 2014) nas redes, mas a análise também indica uma tendência de queda desse comportamento. A própria palavra “selfie” já estava se tornando menos popular em 2014, no final da pesquisa. Ainda assim, fotos que tinham a indicação de que se tratavam de uma selfie por meio do uso de hashtags (#), por exemplo, tinham até três vezes mais curtidas.



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