Luiz Alves, Haroldo Ribeiro, Alvaro Martins, Ervin Lenzi e Matjaz Perc

Retrato em cores das redes de corrupção de 1987 a 2014

Dá para imaginar a cena. Diante de uma lousa virtual, os cinco cientistas da computação lançam notícias colhidas na internet entre 1987 e 2014. As informações contidas ali apontam pessoas e esquemas de corrupção que sacudiram o Brasil no período.

A partir dos dados, imagens de redes formadas por nós e links começam a aparecer e relacionam as figuras e seus escândalos a outros personagens de outros crimes de colarinho branco.
Com exceção da lousa, todo o resto da história é verdade.

Os pesquisadores Luiz Alves, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo, (USP), em São Carlos; Haroldo Ribeiro e Alvaro Martins, ambos da Universidade Estadual de Maringá; Ervin Lenzi, da Universidade Estadual de Ponta Grossa; e Matjaz Perc, da Universidade de Maribor, na Eslovênia e do Complexity Science Hub, na Áustria, se reuniram e fizeram um levantamento de fôlego dos casos de corrupção relatados pela imprensa e que circularam na rede mundial de computadores. Operação Lava Jato, Petrolão, Mensalão, Dólares na Cueca, Anões do Orçamento, Caso Collor, Máfia da Previdência, Caso Banespa, entre outros. Selecionaram então os indivíduos que eram citados em cada escândalo. “Chamamos esses currículos de nós. Quando dois indivíduos eram mencionados em um mesmo caso, pelo menos uma vez, conectam ele com uma reta e chamamos isso de link”, conta Luiz Alves.

Colocando os pontos e as retas numa tela em branco e fazendo as ligações possíveis entre eles a partir de métodos computacionais, os cientistas estabeleceram diagramas que revelavam as propriedades das redes de corrupção. Roteiro de série para o Netfix perde.

Quando a imagem das redes de corrupção eram comparadas com o diagrama de outras redes, “o que encontramos foi uma grande similaridade com as redes de terrorismo, de tráfico de droga e de outros crimes organizados”, se empolga Alves.

Nada a ver, por exemplo, com as redes lícitas como o Facebook, ou redes de estradas e escoamento de produção num estado. “Não, bem diferentes mesmo. As redes ilícitas são pensadas e construídas para não aparecer, não se revelarem nunca. É o oposto das redes sociais, por exemplo, onde o que os nós, as pessoas, mais querem é aparecer e fazer conexões”, ensina o pesquisador de 26 anos.

Luiz Alves, Haroldo Ribeiro, Alvaro Martins, Ervin Lenzi e Matjaz Perc

Casos de corrupção investigados em 2004

Além de parecer um jogo de tabuleiro com detetives, cartas acusatórias e mistérios insolúveis, o estudo chegou a duas aplicações que podem ser práticas e úteis para investigações fora da tela.
“Avaliamos a presença e a participação de cada nó nos 65 escândalos estudados. Alguns apareciam mais, outros menos e, assim, pudemos determinar a importância e a hierarquia de cada um em cada operação de corrupção”, afirma Alves. Em outras palavras, caçaram os chefões do crime em cada caso e estabeleceram as relações com os outros comparsas.

Conhecendo o comportamento padrão de redes – nesse caso, de corrupção – perguntamos se era possível prever os próximos dos tais chefões e o cientista confirmou animado. “Sim, nós construímos uma espécie de modelo relacionando os nós e os links. Projetando esses dados no tempo, dá para ir acompanhando cada novo passo. Nossos diagramas refletiram exatamente a realidade”, garante. Mas será que dá para se antecipar à próxima cartada do nó? Luiz Alves se entusiasma novamente: “Comparamos com redes similares e calculamos as probabilidades de um nó da rede fazer conexões com outro nó. Acertamos 25%”. Quem acha que é pouco, o pesquisador avisa logo que se o chute for aleatório, a chance de acertar o próximo passo do corrupto é de 1%, ou seja, 1 em cada 4 ilícitos poderiam ser antecipados.

Será que os pesquisadores do consórcio internacional já contaram essa novidade para a polícia, o Ministério Público e os demais órgãos de investigação do país? Alvez conta que polícias como a de Nova York e de Los Angeles, nos Estados Unidos, já usam programas computacionais para mapear crimes e possíveis comportamentos de criminosos. “Aqui no Brasil não há nada parecido ainda”, alerta o pesquisador e conclui com um spoiler “quem usar a ciência computacional para investigar corrupção estará na vanguarda, porque ninguém aplica com esse fim”. Sobem os créditos.