CIDADE DE SÃO PAULO, ANO 3.500

Francisco Bicudo | 18 de outubro de 2016
Elisa Marconisao-paulo-e-ets

Aproveitou aquela manhã preguiçosa de feriado (muito bem-vindo) para colocar as leituras em dia. Começou pelo perfil do deputado federal Jair Bolsonaro, publicado pela revista Piauí (do mês passado, atraso imperdoável, estava envergonhado). Indigesto. Preparou um pão com manteiga na chapa, esquentou um café com leite. Para forrar o estômago que estava embrulhado, ardendo. Preferiu aliviar. Divertiu-se em seguida com uma resenha do novo livro do craque Tostão – “Tempos vividos, sonhados e perdidos”. ‘Vou comprar, na versão digital. É mais barato’. Pulou para as reportagens sobre os prêmios Nobel anunciados na semana anterior. Reciclagem e autofagia de células na Medicina, fases de transição da matéria na Física e máquinas moleculares na Química.

Cabralzinho já ia levantando para sintonizar nos programas esportivos matinais – tem rodada do Brasileirão hoje, apesar da folga da padroeira – quando bateu por acaso os olhos na capa da revista Pesquisa Fapesp. A foto de um crânio muito bem preservado e o título ‘Povos de Lagoa Santa’. Interessante. Parou para ler. Não se arrependeu. Deliciou-se com um texto que conta histórias sobre rituais funerários de povos que habitaram aquela região do cerrado de Minas Gerais entre dez mil e oito mil anos atrás, a sugerir que eram ‘populações de caçadores-coletores. Os animais caçados eram peixes, lagartos, roedores, tatus, porcos selvagens e pequenos cervos. Aqueles povos também se alimentavam de muitos vegetais, como pequi e jatobá, ricos em carboidratos. Além disso, usavam fogo o tempo todo’.

Antes que pudesse concluir o último parágrafo da matéria, já tinha sido transportado para uma viagem fantástica. ‘O que será que os cientistas do terceiro milênio vão contar sobre a São Paulo e os paulistanos de hoje?’, divagou, imediatamente imaginando um laboratório high tech, iluminado por luzes brilhantes de várias cores, onde arquivos e bancos de dados eram acessados com a força da mente e a partir de piscadas ritmadas  de olhos, com imagens imediatamente projetadas em quatro dimensões em telas de cristais líquidos, nitidez impressionantes, nanotecnologia pura.

Os pesquisadores – uns serezinhos estranhos, cabeçudos, altos, esguios, quase sem pelos, alguns deles com mais de cem anos, ainda cheios de energia – conversavam animadamente sobre o projeto temático e interdisciplinar ‘A São Paulo dos primeiros vinte anos do século XXI – Ambientes e personagens’. Com três piscadelas em sequência, o que parecia ser o coordenador do estudo fez aparecer num telão – o ambiente era limpo, sem equipamentos, computadores ou fios emaranhados atravancando a passagem – uma foto digitalizada e muito bem preservada de uma placa que anotava o número 50. ‘Era o limite de velocidade permitido nas autopistas que eles chamavam de marginais. Usavam uns veículos estranhos, tinham rodas, marchas, andavam no chão, em vias de asfalto. E houve uma grita danada contra esse limite, embora muitas vidas tenham sido preservadas por conta dele’.

Foram projetadas em seguida imagens de blocos de concreto – ‘calçamentos bem antigos, típicos daquela época’ – vermelhos, que serviam de passarelas exclusivas para outro meio de transporte característico daqueles tempos remotos. ‘Bicicleta’, pronunciou o coordenador, com certa dificuldade, puxando pela memória. ‘Eram artefatos esquisitos, desengonçados, magrelos. As pessoas precisavam se equilibrar e pedalar. Bem primitivo mesmo. Mas eram inofensivas, eficientes, não poluíam. Naquela época, a cidade teve um prefeito, era esse assim que chamavam o chefe supremo, que resolveu interromper a construção dessas ciclofaixas. Sim, era o nome delas’, comentou atenta uma pesquisadora. Ela piscou mais uma vez, três vezes.

Saltou do telão um holograma de um homenzinho com camisa Dudalina (ou seria Ralph Lauren? Dúvida e suspense no laboratório) amarela, pulôver de cashmere nos ombros, amarrado com nó delicado no peito, abraçado a uma senhora bela, recatada e do lar e que não sabia muito bem onde ficava um tal de Minhocão. ‘Era ele, não?’, consultou o coordenador, confortavelmente instalado numa cadeira giratória, suspensa no ar. Mais um piscar de olhos dele e estouraram no telão o jingle da campanha, o joão trabalhador, o programa de governo, acelera são Paulo, vamos privatizar tudo. ‘Até os parques da cidade passaram a cobrar ingressos. Não gostava de ser chamado de político. Dizia ser um gestor’, lembrou.

Mexendo os dedos suavemente, como se fosse um maestro a reger sua orquestras, fez aparecer trechos de artigos já publicados sobre o temático, que discutiam o perfil do tal prefeito. ‘Era rico, empresário, mas foi eleito pelos mais pobres da cidade’, explicou. ‘Abre aquela carta…  é, aquela que encontramos nas escavações mais recentes‘, pediu a pesquisadora. Amassado e com pedaços rasgados e colados, mas ainda permitindo a leitura, era o texto de uma jovem que morava no extremo leste de São Paulo em 2016.

‘Acordo todos os dias às quatro da manhã para trabalhar e ajudar nas despesas da casa. Ônibus lotado. Demora para passar. O ponto é longe do barraco. Aqui no bairro, é uma tristeza só quando a gente precisa de atendimento médico. Filas e equipamentos que não funcionam. Exames demoram meses. Tudo sucateado. A escola está abandonada. Não tem quadra, não tem biblioteca. Meu pai perdeu o emprego. É a crise. Minha mãe, diarista, está procurando outras casas de família. Vou para a faculdade à noite. Tenho bolsa, mas o governo federal suspendeu o financiamento. Não sei se vou conseguir continuar. Acho que o Haddad até fez um bom governo. Mas não voto mais no PT. Já votei. Sempre votei. Mas me arrependo. É só corrupção. O pastor da nossa igreja disse que o João é diferente, trabalhador. Não é desses políticos comuns. Pode dar certo’.

-Pai… pai… onde você estava? Que viagem. Estou chamando faz um tempão. Parece um zumbi aí parado, olhando para o infinito sem nem piscar.

– Já pensou se eu piscasse e imagens aparecessem na parede, filha?

– Como?

Cabralzinho suspirou.

– Estava longe mesmo.

– Percebi.

– A ciência é fantástica. Incrível. E São Paulo é uma cidade maluca. Um enigma. ‘A cidade é uma estranha senhora. Que hoje sorri e amanhã te devora’.

– Nossa, agora vem com Saltimbancos. Do que você está falando, velho? Está tudo bem? Você está estranho. Não estou entendendo nada.

– Nem eu. Nem eu. Acho que jamais vou entender. Vamos começar a cuidar do almoço? Churrasco. Que tal?  Convide os amigos. Aqui em casa ninguém paga ingresso.



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