Ciclo de debates na UFBA ofereceu contribuição fundamental à compreensão da crise política

Mariluce Moura | 11 de abril de 2016

Salão nobre lotado, aplausos intermináveis e, uma ou duas vezes, vaias também, marcaram na sexta feira, 8 de abril, o quinto e último dia do ciclo de palestras “Crise e democracia”, promovido pela reitoria da Universidade Federal da Bahia (UFBA), com apoio do DCE, Apub e Assufba (respectivamente, Diretório Central dos Estudantes, Sindicato dos Professores das Instituições Federais de Ensino Superior da Bahia e Sindicato dos Trabalhadores Técnico-Administrativos em Educação das Universidades Públicas Federais do Estado da Bahia).

Com 20 palestrantes, 14 dos quais convidados de outros estados, entre filósofos, sociólogos, cientistas políticos, economistas, líderes de instituições sindicais e movimentos sociais, além de jornalistas, o evento organizado pelo gabinete do reitor João Carlos Salles, com a antecedência de apenas duas semanas, permitiu uma visão panorâmica inédita e bem articulada do multifacetado pensamento da esquerda nacional – e um pouco do centro também – sobre a crise política que hoje sacode e divide o Brasil.

Nesse sentido, a UFBA, como destacaram alguns dos palestrantes, exercendo plenamente seu papel de universidade, ofereceu uma contribuição fundamental para a compreensão crítica do momento que o país vive e dos gigantescos desafios que ele está pondo para a sociedade. Mais: a busca dessa compreensão não se restringiu aos aspectos internos da crise, seus fatores desencadeantes e possíveis desdobramentos, mas envolveu também a análise de sua relação com a crise mais global e contemporânea do capital.

Registre-se, a propósito, que a universidade investiu apenas R$17.803,00 nas passagens e hospedagem dos convidados de fora, valor informado ao público presente no salão nobre da reitoria na noite de sexta feira por João Carlos Salles, em resposta às notinhas maliciosas veiculadas pela internet e redes sociais, nos dias anteriores, acusando a universidade de gastos exorbitantes em um evento que não teria importância.

“Nenhum convidado recebeu prolabore. Apenas tiveram a passagem e as diárias para pagamento de hotel com café da manhã”, detalhou o reitor. Acrescentou que “o debate foi organizado em poucos dias, muito rapidamente mesmo, o que mostra o apreço dos convidados pela UFBA ao aceitarem abrir espaço em suas agendas para vir a Salvador”.

A propósito da polêmica, aliás, vale registrar que o filósofo João Carlos Salles sempre enfatizou nos debates da campanha que o levou da direção da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas à reitoria da UFBA, em 2014, assim como no discurso de posse, que “gestão e política não deveriam se separar”. Há coerência até por isso em a reitoria promover um debate acadêmico sobre a crise política que afeta a todos, universidades inclusive.

Outros acontecerão, ainda mais que a UFBA está em plena comemoração de seus 70 anos. “A universidade continuará promovendo debates sobre temas diversos, de interesse da sociedade. Neste ano, o fizemos logo na nossa aula inaugural, sobre a epidemia de microcefalia, depois debatemos a terceirização, e assim vamos seguir”, disse o reitor.

Em relação à pluralidade de posições no ciclo de debates, uma aritmética simples, inclusive com superposições, permite concluir, com algum risco de se ter compreendido mal as exposições feitas que, dos 20 palestrantes,

  • 8 defenderam integralmente o atual governo e os 3 anteriores do PT;
  • 12 criticaram duramente o governo;
  • 19 propuseram que há um golpe em marcha contra a democracia;
  • 1 defendeu que não há golpe em curso;
  • 14 defenderam que barrar o golpe para permitir a continuidade do atual governo até 2018 é a tarefa política mais urgente;
  • 1 se posicionou favorável à saída de toda a cúpula do governo e do congresso, na base do “fora todos”;
  • 4 se posicionaram a favor de novas eleições gerais já;
  • 1 defendeu plebiscito antes de qualquer decisão sobre eleições.

 

Olhando a crise desde a cidade

A última mesa do ciclo Crise e democracia foi composta por Erminia Maricato, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), Marco Aurélio Nogueira, professor de teoria política da Universidade Estadual Paulista (Unesp), João Paulo Rodrigues, membro da coordenação nacional do Movimento dos Sem Terra (MST) e Bob Fernandes, jornalista, com mediação de João Carlos Salles.

Ermínia dedicou parte de sua fala a mostrar como as manifestações de junho de 2013, centradas em questões urbanas, em especial na luta pela mobilidade, extravasou da cidade e anunciou o que ia acontecer em termos mais amplos no país. “Junho de 2013 foi uma faísca, nunca mais desde então alguma hegemonia que desse alguma tranquilidade e direção às mentes e corações entrou em cena”, disse.

Especialista em questões urbanas, o que a levou tanto ao trabalho com Luíza Erundina no fim da década de 1980 na Prefeitura de São Paulo, quanto ao governo federal, na primeira gestão da presidente Dilma Roussef, para criar o Ministério das Cidades, Ermínia destacou também em sua fala a necessidade brutal que temos de informações. “Não dá para aceitar que regrida o pouco que avançamos nos anos pós-ditadura, não dá para sermos massacrados por falta de informações”, disse.

Ela se referia a informações sobre as várias facetas de articulação do golpe, e lembrou inclusive uma conversa que teve há cerca de um mês com Julien Assange, jornalista, conselheiro e principal porta-voz do Wilileaks, aproveitando para fazer uma referência também a Edward Snowden, “um patriota”, graças a quem soubemos que “em 2011, 35 mandatários brasileiros e algumas empresas, a Petrobras inclusive, estavam grampeados pela Agência Nacional Americana (NSA)”. Só para lembrar, Snowden, ex-funcionário da NSA tornou públicos naquele detalhes de vários programas que constituem o sistema de vigilância global da agência.

Marco Aurélio Nogueira, com olhar incisivamente crítico ao atual governo, apontou um momento em que o país se vê engessado, carente tanto de estatísticas consistentes para entender esse momento quanto de lideranças, mas repudiou qualquer “visão apocalíptica” para a presente crise. Examinou a coalização do PT com a direita neoliberal, que permitiu a adoção de políticas assistencialistas, mas tornou o fisiologismo “marca registrada de todo esse período”.

“Em 2008/2009 principalmente, muito dinheiro e muita energia foram gastos para a conquista da base governista e os movimentos sociais entregaram a alma ao estado”, disse. Esses fatos e uma política sem qualquer estratégica “aceleraram a crise econômica”, acrescentou, para ponderar em seguida que tais erros, entretanto, “não justificam o impeachment”.

Marco Aurélio indagou por que Dilma Roussef, quando a crise se mostrou, “não chamou as forças políticas que poderiam apoiá-la?”. Terá sido “por arrogância?”. E perguntou “onde estavam os movimentos sociais” quando já não dava para negar a crise. Em seu entendimento, no processo que hoje o país assiste, “há uma crise de discurso, não há uma ideia-força a conduzí-lo”, e talvez reste a possibilidade de uma refundação do governo.

Foi nas considerações finais, depois de observar, em resposta a questões propostas pelo público, que “um ato contra o golpe não pode ser um ato contra a inteligência política”, que é papel do professor levar a uma ultrapassagem do senso comum, que Marco Aurélio Nogueira despertou uma reação mais forte da plateia ao declarar que mão vê “nenhum golpe em marcha”. Foi necessária a mediação do reitor da UFBA para serenar os ânimos dos dois lados.

O campo e a mídia

Bob Fernandes, respeitado jornalista político, hoje comentarista na tevê Gazeta bastante ativo nas redes sociais, centrou sua atenção no processo de aprofundamento completamente antidemocrático da difusão televisiva no país, nos anos iniciais da Nova República, com José Sarney na presidência.

Num país em que a Rede Globo de Televisão, sob os estímulos e o beneplácito da ditadura, transitara de emissora sem grande importância em 1964 ao quase monopólio do setor em 1985, “mais de mil concessões para abertura de emissoras de televisão no país foram então feitas a grupos políticos e grupos econômicos com os quais o governo tinha laços, sem nenhum controle social”, disse. Registre-se aqui que uma grande parte dessas novas concessões engordaria adiante o cabedal da Globo.

Em seguida, valendo-se de imagens projetadas de páginas da imprensa que no passado denunciaram os esquemas de corrupção e outras mazelas que grassavam na vida brasileira desde os anos 1980, 1990, e que hoje surgem como criações dos governos do PT, Bob Fernandes apontou como grande problema da mídia hegemônica o que ela “não está fazendo”, o conteúdo que não está mostrando, dados seus interesses econômicos e outros.

Finalizou apontando como ridículos os argumentos brandidos pelos donos das empresas de comunicação contra a regulação dos meios de comunicação, como o de que mecanismo desse tipo constituiria censura. “Censura é que há cotidianamente nas redações da grande imprensa, estamos falando de regulação econômica da mídia, como existe em todo o mundo, fundamental para um jornalismo plural”, finalizou, não sem antes lembrar que a televisão é concessão do estado.

Um discurso tranquilo e muito bem articulado marcou a fala de João Paulo Rodrigues, dirigente do MST. Ele começou por observar que a conjuntura no país hoje tem a influência de três questões internacionais, das quais a primeira é a reorganização do capital após a crise iniciada em 2008, e dentro da qual o aumento da taxa de lucro e da mais valia são questões fundamentais.
A segunda, em seu entendimento é o movimento internacional de reforço da hegemonia americana e a terceira, a retomada dessa hegemonia via tecnologia da informação.

Em paralelo, longamente as experiências mal sucedidas no campo da esquerda ajudaram “o fortalecimento das formas fascistas na sociedade contemporânea”. Assim, quando a crise econômica bateu também nos Brics, nos países periféricos, no Brasil, e “a direita aqui resolveu tomar um atalho direto para retomar o controle total do poder, como já fizera em outros países da América Latina, estava pronto um clima para a disseminação do ódio”, com parte da classe média mais endinheirada, do Judiciário e do parlamento dando suporte a isso.

João Paulo Rodrigues arrancou risos da plateia quando disse, “mas, como a dialética não falta e deus existe, a Lava-Jato pode trazer problemas para eles também”. Finalizou observando que as tarefas que nesse momento cabem à esquerda são manter a luta nas ruas, puxar o governo para a esquerda como condição sine qua de sua sobrevivência e reforçar muito a organização da esquerda de modo a que se encontre uma unidade na ação, a despeito das visões plurais sobre a crise.



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