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“Cheiro de alecrim”: pesquisadores portugueses se solidarizam com brasileiros
Universidades

por | 14 maio 2019

foto da home: Henrique Matos – CC BY-SA 3.0

 

O Diário de Notícias, um dos mais importantes jornais de Portugal, publicou na segunda-feira, 13, dentro de uma extensa e bem ilustrada reportagem sob o título “Acadêmicos portugueses mandam ‘um cheirinho de alecrim’ para o Brasil”, uma carta aberta de sociedades científicas daquele país, representantes de filósofos, sociólogos, antropólogos e outros professores universitários, contra o bloqueio no orçamento e outras medidas que ameaçam as universidades públicas brasileiras.

O cheiro de alecrim é uma alusão à canção Tanto mar de Chico Buarque, de 1975, inspirada pela Revolução dos Cravos de 25 de abril de 1974, que assinala o fim da longa ditadura salazarista, àquela altura comandada por Marcelo Caetano, enquanto no Brasil o regime dos militares seguia firme. A letra original, depois alterada para driblar a censura, justamente compara os ares que se respirava nos dois países, pedindo que os portugueses nos mandaseem alguma esperança: “Lá faz primavera, pá/ Cá estou doente/ Manda urgentemente algum cheirinho de alecrim”.

O documento que se mantém aberto à subscrição pública e até o começo da noite desta terça-feira tinha em torno de 700 signatários, começa dizendo que “A Sociedade Portuguesa de Filosofia, a Associação Portuguesa de Sociologia e a Associação Portuguesa de Antropologia têm acompanhado, com apreensão cívica e consternação intelectual, a degradação profunda da situação pública a que estão a ser sujeitos nas áreas científicas que representamos colegas do Brasil, suas instituições e mecanismos de trabalho”.
Em tom vigoroso, o abaixo assinado diz em seguida: “Repudiamos a recriminação ideológica e desqualificante de colegas por serem historiadores, filósofos, sociólogos, antropólogos, ou, de forma mais genérica de Humanidades e Ciências Sociais. É uma gravíssima cedência ao obscurantismo e que ganha contornos persecutórios civicamente inadmissíveis ao ser protagonizado pelos mais altos responsáveis do governo federal do Brasil, a começar pelo próprio Presidente da República e pelo próprio ministro que tutela a ciência”.

O parágrafo seguinte cita, elogiosa e enfaticamente, o pensador da educação que provoca arrepios de horror nos atuais governantes do país. “Como notava um dos mais prestigiados e influentes intelectuais que o Brasil deu ao mundo, Paulo Freire, o óbvio tem de ser repetido, por óbvio que seja, para que não seja esquecido. Não há sociedades livres sem pensamento livre e não há pensamento livre limitando, condicionando ou vigiando a actividade científica das ciências sociais e humanas.”

Por fim, o abaixo-assinado, certamente escrito quando o ministro da Educação ainda não informara que o bloqueio orçamentário se estendia a todas as instituições federais de ensino superior e avisara que atingiria a UnB, a UFBA e a UFF, a pretexto da “balbúrdia” e do baixo desempenho dessas universidades, explicita que resposta quer ao documento. “Vimos assim, os abaixo-assinados, instar as autoridades responsáveis no Brasil que, com a máxima urgência, seja interrompido o bloqueio orçamental às universidades de Brasília, Federal da Bahia e Federal Fluminense, bem como a asfixia moral, política e financeira em curso das actividades docentes, de investigação e de transferência de conhecimento nas áreas científicas das Ciências sociais e humanas”.

A metáfora dos chocolates

A reportagem do Diário de Notícias refere-se logo num dos primeiros parágrafos ao que chama ironicamente de a metáfora dos chocolates, escolhida pelo ministro Abraham Weintraub para explicar a questão do orçamento das universidades públicas federais e “transmitida em direto pela BTV (Bolsonaro TV)”. Traz, como se pode imaginar, o vídeo em sua inteireza para não deixar qualquer dúvida entre seus leitores, antes de tratar de uma outra face, a seu juízo ainda mais polêmica, do ataque governamental às universidades, ou seja, a descentralização “do investimento em faculdades de filosofia e sociologia”, que originou um movimento de solidariedade em Portugal.

A reportagem ouve uma meia dúzia de destacados pesquisadores portugueses que não usam meias palavras para manifestar seu espanto e veemente repúdio às medidas contra a educação. A historiadora Irene Flunser Pimentel, por exemplo, diz que ela e colegas esperam, com a carta, “em primeiro lugar abalar a opinião pública portuguesa, também universitária, preocupada com os ataques desferidos às disciplinas sociais e humanas, bem como à História, habitualmente instrumentalizada por regimes com propensão para o autoritarismo, entre os quais se conta o de Bolsonaro.”

O filósofo José Meirinhos, presidente da Sociedade Portuguesa de Filosofia, observa que aquilo que está ocorrendo no Brasil afeta a comunidade acadêmica internacional. “As palavras do Presidente do Brasil e do seu Ministro da Educação são suscitadas apenas por vontade de vingança e retaliação em relação ao mundo académico. Todos sabemos que se tivesse sucesso, que não terá, a seguir seriam cerceadas outras áreas do saber: para que serve a matemática pura? e a ecologia? e a astronomia? e a cosmologia? e a literatura ou a poesia? e a investigação sobre vacinas? Se querem que os brasileiros se deixem guiar por um guru ou dois deformados pela astrologia e conspirações, estão muito enganados.”

Vários dos entrevistados do Diário de Notícias falam da colaboração em pesquisas com colegas brasileiros e da contribuição dos brasileiros para a produção mundial do conhecimento, incluindo Meirinho. “Todas as grandes universidades europeias e americanas têm relações com a investigação brasileira nestes domínios. E isso tem um enorme retorno social e económico. A comunidade académica internacional precisa do contributo que o Brasil tem dado, continua e continuará a dar nestas áreas. Reagir a estas ameaças arbitrárias e infundadas é também dizer aos nossos colegas brasileiros que a sua voz é ouvida e respeitada e que continuamos a contar com eles e que podem contar connosco.”

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