Na quinta-feira, 05 de dezembro, a jornalista baiana Josélia Aguiar lançou em São Paulo – depois de anos de pesquisa – Jorge Amado – uma biografia. Publicado pela editora Todavia, a obra começou a ser escrita com intuito de ser entregue ainda em 2012, ano do centenário do escritor. Mas era assunto demais, documento demais, história demais, vida demais para terminar assim. E a pesquisa de Josélia se estendeu e se aprofundou.
O resultado é um volume de 640 páginas, entre textos e fotos, que revela a trajetória de Jorge, passagens muito e pouco conhecidas e alguns apontamentos inéditos, conseguidos com exclusividade coma família Amado.

Josélia Aguiar

Para construir seu Jorge, a biógrafa começou investigando as memórias do baiano e de sua mulher, e também escritora, Zelia Gattai. Enquanto se debruçava sobre cartas, escritos e entrevistas do casal, Josélia lia também os romances relativos e lançados naquele tempo estudado. Assim, foi costurando, entre realidade e ficção, um personagem robusto, cheio de facetas, com mistérios difíceis de desvendar, mas profundamente coerente. “Aprendi no mestrado em História a trabalhar com a documentação, isso foi importante, porque Jorge dizia e depois desdizia muitas coisas, concordava e discordava de si mesmo. Trabalhei muito com os prefácios de primeiras edições, que ajudam a desenhar o escritor em seu tempo”, contou no evento de lançamento, que aconteceu no auditório da livraria Martins Fontes, na Avenida Paulista.

Talvez, a parte mais trabalhosa tenha sido tratar daquilo que Jorge Amado não dizia, mas que lhe doía fortemente. Abertamente um homem da esquerda, o escritor era associado ao Partido Comunista nos anos 1930 e chegou a ser deputado federal no curto intervalo em que o partido esteve na legalidade. “Mas Jorge esteve na União Soviética e, mesmo depois de ter dito que [Josef] Stalin parecia um vovô bigodudo e bonachão, viu a perseguição a conhecidos, a violência e o que se seguiu àquilo tudo e sofreu um profundo desencanto. Sobre o qual ele não falava”, conta Josélia. Quando o editor da Todavia, Leandro Sarmatz, pergunta porque lhe faltavam palavras para isso, a biógrafa arrisca dizer que Jorge “nunca quis dizer nada, nem publicar nada, que pudesse ser usado contra a esquerda”.

O que a surpreendeu, no entanto, não foi o viés político, ou o fato de Jorge não beber álcool – embora andasse com artistas boêmios. Foi, antes, o profissionalismo, o trabalho incansável, a noção de percurso e de carreira que ele tinha desde sempre. Muito parecido com o amigo gaúcho Érico Veríssimo, que inclusive sofria críticas parecidas com aquelas destinadas ao baiano. Aliás, talvez seja justamente esse compromisso com o trabalho que motivou as piores críticas recebidas por Jorge Amado. Mas primeiro é preciso explicar um ponto. Segundo Josélia, essa sensação de que o escritor apanhava muito da imprensa especializada não é de todo verdadeira. “Ele tinha boas críticas, de especialistas e de escritores, que formam até uma fortuna crítica”, explica a autora. No entanto – e aí entra aquela noção de carreira – Jorge por vezes soltava livros “verdes demais, sem um cuidado obsessivo com cada palavra e com a ortografia, como fazia Graciliano [Ramos], que levava anos para escrever e publicar”, lembra. Jorge Amado publicava um livro atrás do outro e alguns com alguns descuidos mesmo. Lá para as tantas, ele e Zélia, que fazia a revisão dos livros, desistiram de acompanhar as mudanças e reformas ortográficas e, sim, uma coisa ou outra escapava. “Mas passada essa má vontade, a crítica sempre mudava de opinião e tirava as obras daquela prateleira dos livros menos nobres e colocava junto aos grandes do país”.

Para além disso, o que Josélia encontrou na crítica e na imprensa especializada foi “racismo mesmo, preconceito. Romancear os pobres, pretos e gente do Candomblé doeu sim na academia, que nunca entendeu bem porque falar dessa gente”, provoca. Por gostar de falar desses brasileiros populares, propõe a biógrafa, Jorge também foi visto como alguém que falava de um Brasil que já tinha sido, um Brasil velho, de 20 ou 30 anos antes e que não era mais. “Outra questão que merece nosso olhar nos dias de hoje. Um Brasil que ataca terreiros, que prende meninos e meninas de rua e trata sindicalistas na bala não é tão antigo assim”.
Jorge Amado – uma biografia (640 pág, Ed. Todavia) está a venda em livrarias, por R$79,90 e na versão digital por R$39,90.