Divulgação/ Unifor

As cabras geneticamente modificadas são fofas e produzem um leite quase humano

Elas são tão lindinhas que dá vontade de trazer para casa e ter como animal de estimação. No entanto, os pesquisadores da Universidade de Fortaleza, Unifor, estão criando e trabalhando com cabras geneticamente modificadas para uma finalidade bem mais nobre.

A ideia da equipe liderada pela professora Luciana Bertolini, doutora em genética pela Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos e por seu marido, Marcelo Bertolini, veterinário e doutor em fisiologia pela mesma universidade é conseguir que as cabras (tão lindinhas mesmo!) produzam leite com características, digamos assim, mais humanas.

Através de uma técnica chamada Crispr (lê-se crísper), uma espécie de tesoura molecular que permite editar genes com bastante precisão, os cientistas conseguiram acrescentar duas proteínas do leite materno no leite produzido pela cabra, lisozima e lactoferrina, que protegem os bebês principalmente de doenças gastrointestinais.

Consumir essas proteínas seria bem útil, por exemplo, para aquelas crianças que por alguma razão não podem ser alimentadas com o leite materno. Para melhorar, o leite de cabra tem menos compostos alergênicos que o de vaca, daí a escolha.

Aos jornalistas Gabriel Bosa e Mariana Bananal do jornal Folha de São Paulo, Luciana Bertolini contou que já foram feitos dois testes com aquelas belezinhas. “No Brasil, induzimos um quadro de desnutrição em camundongos, e os que ingeriram leite com lisozima conseguiram se recuperar muito melhor do que os que não receberam.”

Como a equipe trabalha em parceria com a Universidade da Califórnia, a experiência foi repetida lá, mas dessa vez com porquinhos (esses não vimos nas fotos, então não podemos atestar o grau de fofice, infelizmente) e com a proteína lactoferrina. Novamente deu certo. Os bons resultados foram publicados no artigo Milk from transgenic goat expressing human lysozyme for recovery and treatment of gastrointestinal pathogens, publicado no periódico científico European Journal of Pharmaceutical Sciences.

Divulgação/ Unifor

A venerável Gluca: leite que poderá combater doenças

O próximo passo da equipe de Luciana é reunir os testes com os dois genes produtores das duas proteínas em apenas uma espécie de anila, a cabra.

Tradição

Em outubro 2015, as cabras da Unifor foram notícia na revista Pesquisa Fapesp, em reportagem do editor de Tecnologia, Marcos de Oliveira. Ali, a estrela da festa era Gluca, o primeiro caprino transgênico produzido na América Latina. Para chegar a ela, os cientistas usaram a técnica da clonagem com células geneticamente modificadas.

Gluca está mais para elegante e fleumática do que para fofinha, mas trabalhou duro para entregar em seu leite uma proteína chamada de glucocerebrosidase (sim, daí vem o nome da moça), que atua no processamento de um tipo de gordura celular.

“Quem não a produz tem comprometimento de órgãos como fígado, baço e no sistema nervoso central, além de dor nos ossos. Os sintomas fazem parte da caracterização clínica da doença de Gaucher (pronuncia-se Gochê), uma enfermidade genética rara. A Gluca é parte de um experimento iniciado na Unifor para que cabras transgênicas tenham no leite a glucocerebrosidase, que, depois de extraída e purificada, poderá ser transformada em um biofármaco para combater essa doença”, dizia a reportagem.