Ataque premeditado fez 12 vítimas

Francisco Bicudo | 08 de fevereiro de 2016

Antes de o árbitro apitar o início da partida, todos os duzentos milhões de brasileiros (excluindo o Felipão e o Parreira) havíamos discutido exaustivamente o esquema tático que deveria ser usado pela Seleção para derrotar a Alemanha naquela tarde que se confirmaria tenebrosa de 8 de julho de 2014, semifinal da Copa do Mundo. Nas rodas de amigos e nos encontros familiares, conversamos com preocupação a respeito dos rumos da crise econômica. Palpiteiros incorrigíveis, temos sempre sugestões a generosamente oferecer ao ministro da Fazenda. Se ele quiser nos ouvir… Mesmo não sendo especialistas, não nos furtamos a arriscar reflexões e invariavelmente temos algo a dizer sobre os refugiados sírios que tentam entrar na Europa e também sobre as primárias dos partidos Democrata e Republicano nos Estados Unidos. Adoramos acompanhar bem de perto as listas de filmes favoritos e manifestar nossas preferências nas noites em que a Academia de Cinema faz a entrega do Oscar. Somos no entanto pegos de surpresa, caras de ponto de interrogação, aquele “É… É… É…” de quem está pensando em começar uma frase mas não faz a menor noção de como, quando convidados a conversar a respeito dos registros mais antigos de uma guerra entre gente da nossa espécie. ‘Saiu estudo tratando disso? Ah, é… Li na diagonal, ouvi muito de orelhada, não prestei tanta atenção’, alegamos, em tentativas envergonhadas de camuflar o pouco interesse que ainda manifestamos em relação aos temas de ciência e de tecnologia. Apesar do crescimento e qualificação dos mecanismos e estratégias de divulgação, por razões que vão da formação tardia do nosso sistema de pesquisa à percepção ainda enraizada de que ‘é chato, não é comigo, é só para os cientistas’, e salvo em situações de crises anunciadas e quando a água bate no pescoço (aquecimento global e zika vírus, por exemplo), o fato é que os desafios e as descobertas da ciência ainda não ocupam lugar de destaque e o protagonismo merecido nas nossas listas de conversas cotidianas.

 

Na sexta-feira, 22 de janeiro, quando foi divulgado o trabalho feito pela equipe da Universidade de Cambridge que trouxe à tona as marcas e evidências da mais antiga guerra travada entre homens, arrisco dizer que o instigante assunto poderia ter embalado as rodas de conversas nas salas e nos intervalos das aulas das escolas que foram ocupadas pelos estudantes no final do ano passado e também, por que não, os papos nas mesas de bares da Vila Madalena, baladas noturnas. Nem que fosse só por dez minutinhos. Cinco, tudo bem. Breve menção honrosa. Nadinha. Uma pena. O estudo coordenado por Marta Mirazón Lahr e publicado pela revista ‘Nature’, afinal, é saborosíssimo. Revelou esqueletos de doze pessoas mortas, há dez mil anos, amarradas e imobilizadas, vítimas de flechadas e cacetadas com porretes que causaram ferimentos nos crânios e fraturas em outros ossos dos corpos; por fim, foram enterradas numa cova rasa, numa laguna que se formava em épocas de chuva. Para a pesquisadora, o ataque mortal foi premeditado, a sugerir que as guerras já existiam antes mesmo do surgimento da agricultura (as ossadas eram de homens e mulheres caçadores e coletores) e tinham como objetivo não apenas a conquista de territórios, mas explodiam também graças à competição por recursos que eram escassos. Lendo as matérias publicadas que tratam da pesquisa, fico aqui brisando e tentando imaginar como teria sido a treta. Quanto tempo será que durou o ataque? Foi rápido, uma surpresa, sem permitir reação ao inimigo? Atacaram durante a noite? Como se prepararam para a ação? Quais eram os rituais de mobilização dos guerreiros? Estavam pintados? E as manobras? Apenas combates pela frente? Ou também pelos flancos e pela retaguarda, para encurralar a tribo rival e impedir a fuga dela? Fico também imaginando como as sociedades – e os pesquisadores – que viverão daqui a dez mil anos irão estudar e narrar as nossas guerras contemporâneas. Que vestígios e informações deixaremos? Triste é constatar que, em pleno século XXI, a espécie chamada Homo sapiens – homem que pensa – ainda invente desculpas como armas de destruição em massa e escolha não raro resolver suas desavenças não pela substância das ideias e dos argumentos, mas pela força bruta dos bombardeios e dos drones. Em perfil publicado pelo suplemento “Eu & Final de Semana” do jornal “Valor” na sexta-feira, 05 de fevereiro, o escritor moçambicano Mia Couto afirma que “uma guerra é uma ferida sem cicatriz possível. Ela cria um sentimento de sufocamento e uma violência que não é só física. O que vem junto com a guerra é o estado de carência de crença no futuro’. Pois é. Minhas elucubrações começaram com Ciência, passaram pela Literatura para terminar em profundas reflexões sobre a existência humana.

 

Ainda incomodado pelas guerras e decantando as falas de Mia Couto, abri a ‘Folha de São Paulo’ da mesma sexta-feira para ler uma matéria sobre estudo coordenado pela médica japonesa Emi Nishimura, da Universidade Médica e Odontológica de Tóquio, que sugere que o envelhecimento de células-tronco dos folículos capilares (onde os fios de cabelo são cultivados) é um dos responsáveis pela calvície. A identificação foi imediata, inevitável. Olhei no espelho. Acariciei minhas entradas, percebi a testa cada vez mais larga. Sacanas, essas células-tronco. Sei não. Acho que vou ligar para uns parças também quase carecas e convidá-los para uma cerveja num bar da Vila Madalena. Temos muito o que conversar.



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