As princesas da Disney, a chinesa Mulan e as crianças brasileiras

Pamela Gouveia | 22 de março de 2016

“Para ser princesa tem que casar, né?”, disse uma menininha para a antropóloga Michele Escoura, durante suas visitas de trabalho a escolas infantis no interior de São Paulo. A garota da frase ainda completou, “porque princesa solteira não existe, senão não vai ser princesa, vai ser solteira”.

Ser bonita, jovem, magra, elegante, ter um belo vestido, jóias e coroa, eis o que é preciso para ser uma princesa, nas respostas das crianças. A pergunta foi o principal eixo condutor da pesquisa de Michele, Girando entre Princesas: performances e contornos de gênero em uma etnografia com crianças, para o mestrado em Antropologia Social na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH -USP).

“Se podemos dizer que as princesas são uma importante fonte para o repertório de gênero entre as crianças, é justamente porque elas se constituem como ícones da feminilidade pela associação entre beleza e glamour“, diz a pesquisadora em sua tese.

Participaram da pesquisa 200 meninos e meninas de 5 anos de idade, alunos de duas escolas públicas e uma particular nas cidades paulistas de Marília e Jundiaí. Entre os anos 2009 e 2011 Michele acompanhou a rotina desses alunos dentro da sala de aula, três vezes por semana, durante quatro meses. O objetivo era entender a influência das princesas Disney na construção da visão de feminilidade das crianças, na pré-escola.

Cinderela x Mulan

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“Olha tia, eu rodo que nem a princesa”, era o que dizia uma menininha anos atrás enquanto girava sobre seu próprio eixo até que sua saia atingisse o ar. Cinderela era a referência da criança para essa corporalidade dita de “princesa”. Foi a partir desta cena que a antropóloga desenhou a pesquisa, ainda na iniciação científica, com foco na Cinderela, e a continuou no mestrado ampliando para a temática das Princesas Disney.

Michele usou a própria divisão proposta pela Disney entre princesas “clássicas” e “rebeldes”, para selecionar os desenhos Cinderela e Mulan, uma representante de cada modo de “ser princesa”, como ponto de partida para as discussões sobre a feminilidade apresentada e promovida pela Disney.

A Cinderella in her dressjovem sonhadora Cinderela foi criada em 1950, com ênfase no romantismo e na esperança de sua personagem superar os dias de gata borralheira e ser recompensada pelo amor de um príncipe encantado. Já o desenho Mulan, animação de 1998 é protagonizado por uma jovem chinesa, corajosa, que se traveste de homem para representar sua família no exército da China e quando volta para casa, além de heroína, se tornou o grande amor do capitão do seu batalhão.5751dcb05ff19e5fef4b08604ec551d8

Apesar de contrastantes, a pesquisadora explica que o romantismo de Cinderela e o heroísmo de Mulan — uma sendo passiva frente às adversidades e outra criando e resolvendo seus próprios conflitos, as duas estão inseridas em um mesmo conjunto de personagens sobre o nome “princesas”, denominação essa vinculada ao potencial de realização no amor conjugal.

Durante a pesquisa, Michele assistiu aos dois filmes na companhia das crianças e anotou os comentários feitos espontaneamente por elas. Depois da sessão as crianças eram convidadas a desenhar o que mais gostaram e explicar o porquê. O romantismo de Cinderela e o heroísmo de Mulan eram os temas centrais nos desenhos dos meninos e das meninas, independente da escola.

Para representar a Cinderela as crianças desenhavam o baile, o beijo e o casamento já em Mulan o foco eram as vitórias da protagonista, seja nas lutas durante a Guerra ou no reencontro com sua família e seu par romântico.

Ser princesa

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“A questão do ‘ser princesa’ gerou uma enorme controvérsia entre as crianças, enquanto Cinderela, para elas, era claramente a representação de uma, Mulan encontrava bastante resistência”, apontou Michele no estudo.

A antropóloga ouviu as mais variadas respostas e explicações: “Para ser princesa precisa de um príncipe”, disse uma das crianças. Outra criança justificou: “porque ela não casou, e tem que casar”, explicando o fato de Mulan talvez não ser uma princesa.

Cinderela_reproducao“O casamento parecia compor um dos principais critérios para a formação de uma princesa. A reivindicação de que ‘tem que casar’ se repetiu entre as respostas das crianças, não apenas entre aquelas que não achavam Mulan uma princesa, mas também entre aquelas que concordavam com o rótulo da Disney”, descreveu Michele.

Para a pesquisadora, a análise da narrativa dos dois filmes selecionados trazem como ponto comum entre as princesas Disney o sucesso no amor conjugal. Apesar das diferenças nas duas histórias, as princesas dependem do príncipe e a feminilidade só é completa após o casamento ou a sugestão dele.mulan-e-shang


 “Ela é de luta”, disse um dos meninos sobre a Mulan. “Ela não tem coroa, e toda princesa tem coroa; precisa dos vestidos”, completou. Outro disse ainda “não é princesa porque ela ficou batendo naquele homem, a outra [Cinderela] não faz nada”.

Já uma das meninas disse que Mulan “precisa passar batom”, ao mesmo tempo que algumas crianças logo definiram Cinderela como uma princesa simplesmente porque “ela é linda”. Um dos desenhos, de uma aluna da escola particular trazia ainda uma Mulan (a personagem chinesa com traços orientais) de cabelos amarelados e loira.

“Notamos que se as crianças se referiam às princesas enquanto pessoas essencialmente ‘lindas’, os parâmetros por elas utilizados de beleza, como evidenciado no desenho, parecia conter referenciais bastante difundidos de uma beleza, no mínimo, branca e, além disso, jovem, tendo em vista a recorrente referência às personagens a partir do termo ’menina’”, explicou Michele.

A tese completa está disponível neste link. Michele continua sua pesquisa na área de Estudos de Gênero, como doutoranda em Ciências Sociais, na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).



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