Boleiros precisam ter essa notícia. Goleiros, esses injustiçados, também.

Saiu na Agência Fapesp nesta quarta-feira, 07 de março. Pesquisadores brasileiros desenvolveram um modelo matemático que pode determinar a melhor decisão a ser tomada por um jogador, em situações bem específicas. Detalhe. Essa decisão pode ser tomada antes mesmo do jogo começar.

Irish News

Gordon Banks, goleiro da Inglaterra em 1966, considerado o único homem a parar Pelé

“Com a ferramenta é possível, por exemplo, avaliar o desempenho do atacante e do goleiro em um lance de chute a gol no futebol – sem levar em consideração o resultado da jogada, com foco apenas nas decisões que cada um tomou”, informa o repórter Peter Moon.

“É um trabalho inovador. Estudos anteriores abordaram a avaliação da decisão em um jogo recorrendo à avaliação de especialistas, recaindo em limitações ligadas à subjetividade da análise. Nós usamos apenas probabilidades, medidas a partir da observação de muitos outros jogos de mesma complexidade”, disse Leonardo Lamas, pesquisador da Faculdade de Educação Física da Universidade de Brasília (UnB) e primeiro autor do artigo.

A validação do modelo foi feita com foco na avaliação de goleiros diante de diferentes situações de ataque, mas a metodologia de análise vale para outros esportes coletivos diferentes do futebol e para posições variadas.

A pesquisa foi feita em colaboração com Junior Barrera e Guilherme Otranto, do Instituto de Matemática e Estatística (IME-USP), e Rene Drezner, da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (EEFE-USP). E não basta ser pesquisador, tem que ser paizão e participar.

A inspiração para Barrera foi o filho Rodrigo, goleiro em um time mirim de futsal. “Como ele jogava bem, passou para o futebol de campo. Quando vi o menino no gol imenso, pensei: como ele vai fazer pra chegar na bola, sendo tão pequeno? Mas percebi que, em cada jogada, o gol de futebol de campo poderia se reduzir ao gol de futsal, se o goleiro estivesse adequadamente posicionado”, disse à Agência.

Aí foi agregar os outros cientistas e desenvolver o modelo.

“Nosso estudo teve dois objetivos. O primeiro foi definir um método para avaliar as decisões de um jogador durante um jogo baseadas nas probabilidades de sucesso de suas ações. Para isso, diante da quantidade enorme de ações que o atleta pode realizar, era fundamental determinar uma abordagem para agrupar essas muitas ações em classes genéricas – ainda que representativas das variáveis que distinguem as ações ofensivas”, contou Lamas.

Um exemplo é o passe, categoria bem genérica. Chutes a gol, ao contrário, são eventos bem específicos e são tratados em outras classes.

“Construímos o modelo de representação de classes considerando parâmetros relevantes do ataque e da defesa. E fizemos a aplicação ao futebol, em situações de finalização ao gol. Nesta aplicação ao futebol, conversamos com técnicos de alto nível, vasculhamos a literatura e assistimos a muitas partidas do campeonato europeu de seleções”, contou Lamas.

Os pesquisadores aplicaram então o conceito de “oráculo”, uma espécie de super banco de dados para calcular a probabilidade de ocorrência de cada resultado possível em um lance a partir da variação dos parâmetros que definiam cada classe de ação analisada. Tempo técnico aqui: neste ponto o trabalho ganha um ineditismo ainda mais elevado.

“Feito isso, o segundo objetivo do trabalho foi validar a nova metodologia, de avaliação das decisões com base em probabilidades, aplicando-a na análise da estratégia dos jogadores em situação real de jogo. O método foi aplicado no contexto do goleiro de futebol”, disse Lamas. Criaram então um oráculo com lances de 65 goleiros profissionais que jogaram em seleções nacionais nas Copas do Mundo de 2010 a 2014. Esse oráculo foi aplicado na avaliação da primeira estratégia, assim como na avaliação dos goleiros Gianluigi Buffon (Itália) e Júlio César (Brasil).

“Ao confrontar os resultados do oráculo com as três estratégias que analisamos, verificamos que, em grande parte, as decisões foram próximas daquelas com as menores probabilidades de gol do oráculo. Ou seja, todas apresentaram um bom desempenho em termos de decisões. Vale dizer que isso pode não ter significado sempre na realização de uma defesa. Pode ocorrer o ‘frango’, caso em que o goleiro se posiciona perfeitamente para uma defesa, mas executa mal o gesto técnico e a bola passa de forma banal por ele”, explicou Lamas.

Ainda segundo o pesquisador, um processo qualificado de treinamento deve diferenciar o treino tático do treino técnico. “No Brasil, temos uma ênfase muito grande no treino técnico e físico e menor cuidado com a parte tática, de inteligência, fundamental para o bom desempenho. Isso é bastante verdade no caso dos goleiros”, disse.

Em tempo, enquanto Barrera pesquisava, Rodrigo treinava e jogava. O desempenho do guarda-metas mirim foi tão bom que acabou rendendo um convite para cursar uma universidade norte-americana e jogar bola defendendo a instituição.

O artigo Analytic method for evaluating players’ decisions in team sports: Applications to the soccer goalkeeper, de Leonardo Lamas, Rene Drezner, Guilherme Otranto, Junior Barrera, pode ser lido em http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0191431. 

**A imagem de abertura desta nota mostra o goleiro espanhol Carmelo Cedrun, em 1955, num jogo contra a Inglaterra.