Imagem de abertura: Navio negreiro, do pintor alemão Johann Miritz Rugendas

O Brasil ainda era um país escravagista quando um grupo de africanos viveu uma experiência diferente, quase um trabalho de homens livres numa fábrica em Sorocaba, no interior de São Paulo.

Alameda Casa Editorial

A capa do livro de Mariana

Quem conta essa história bem pouco conhecida é a historiadora Mariana Alice Pereira Schatzer Ribeiro, que em 2014 defendeu a dissertação de mestrado Entre a fábrica e a senzala: um estudo sobre o cotidiano dos africanos livres na Real Fábrica de Ferro São João do Ipanema-Sorocaba – SP (1840-1870), na Universidade Estadual Paulista, campus de Assis.

A pesquisa orientada pela professora Lúcia Helena Oliveira Silva virou um livro lançado recentemente pela Alameda Casa Editorial e Fapesp.

Voltando para aquele início de século XIX, o país sofria pressões para acabar com a escravidão e vinha assinando uma série de acordos com a Grã-Bretanha para minimizar o tráfico de africanos e o trabalho escravo propriamente dito.

Um desses acordos, que virou lei em 1831, estabeleceu que “os africanos capturados nos navios apreendidos deveriam ficar no Brasil durante 14 anos e, depois, deveriam voltar a seu país de origem. E, enquanto estivessem por aqui, seriam destinados a prestação de serviços em empresas públicas ou privadas” explica a autora. O grupo estudado por Mariana foi enviado para a Fábrica de Ipanema, em Sorocaba e ficou trabalhando lá.

A pesquisadora passou muitas horas investigando os documentos desse caso no Arquivo Público do Estado de São Paulo, buscando informações sobre a origem étnicas dos africanos livres, as funções que ocupavam na fábrica, as tentativas de fuga, os conflitos que enfrentaram, as doenças que enfrentaram e a constituição de novas famílias.

Descobriu que “a rotina de trabalho era exaustiva, recebiam pouca comida, parca vestimenta e moradias precárias. Situações muito semelhantes aos tratamentos dados à população escravizada”. Mas encontrou também que a proximidade fortaleceu as relações de companheirismo e os laços entre eles.

Num primeiro olhar, a lei de 1831 parece uma tentativa do estado brasileiro de se modernizar e se adequar a tempos mais livres. No entanto, “a norma ficou conhecida como a ‘Lei para inglês ver’, porque não cumpriu os combinados, estourou os prazos e os africanos acabaram ficando por aqui como escravos do governo brasileiro”, conta.

Em outras palavras, a condição de livres foi apenas um status jurídico, porque os africanos não receberam tratamento diferenciado ao dos escravos. Além de não serem livres, eram descriminaos pela elite local, que temia a presença de negros que, em tese, não eram escravos.

“Havia a preocupação de que eles influenciassem os escravos, fizessem revoltas e corrompessem os costumes. Isto ocorreu devido à Revolta dos Malês, em 1835, na Bahia, quando um grupo de africanos muçulmanos tentou realizar uma revolta contra a escravidão”.

Junto com isso, a sublevação como no Haiti – outra revolta de escravos – que sacudiu o pequeno país da América Central entre 1791-1804, ainda trazia lembranças nada doces para a elite brasileira. Só para constar, os africanos escravizados tomaram o poder e aboliram a escravidão por lá.

“Já, a população livre e pobre por diversas vezes acolheu, ajudou o grupo inclusive nas suas fugas. Quanto aos escravos ocorreram aproximações, relações de solidariedade, formações de famílias, etc”, diz Mariana Alice Pereira Schatzer Ribeiro.

Em 1853, o governo decretou a liberdade dos africanos que pertenciam àquele grupo. Mas não pense que foi assim fácil. Os que trabalhavam nas instituições públicas, como Ipanema, só tiveram direito às cartas de emancipação no ano de 1864. Ainda assim, a lei determinava que essas pessoas tinham de declarar seus endereços e se apresentar ao governo anualmente.

Divulgação/ Flona de Ipanema

As ruínas da fábrica

“O Estado procurou utilizar os mais variados instrumentos para protelar a liberdade do grupo. Inúmeras pessoas permaneceram nos locais de trabalho, milhares já haviam morrido, estavam velhos, doentes, etc, afinal os primeiros grupos chegaram ao Brasil a partir da década de 1830. Outros tiveram a sua mão-de-obra utilizadas nos projetos de colonização, favorecendo assim as tentativas de reescravização”, explica a pesquisadora.

Mas os africanos livres não ficaram quietos nesse período. Eles agitavam a fábrica, “fugiam em grupo, casaram-se, formaram famílias, adoeceram, ou até mesmo morreram por falta de tratamentos médicos adequados”, ensina Mariana.

A Real Fábrica de Ferro Ipanema encerrou suas atividades em 1895 e é considerada o berço da siderurgia no Brasil. Hoje o que sobrou da fábrica é conhecido como Flona de Ipanema, O nome vem de Floresta Nacional de Ipanema e dá para visitar, fazer caminhada e conhecer a ruína dos prédios.

O que sobra na Flona, falta na cidade: “quando fazem menção ao empreendimento há um silêncio acerca da atuação dos africanos e também da população escrava, muitos citam apenas a presença dos operários estrangeiros os quais passaram pelo estabelecimento como os suíços e alemães”, alerta a historiadora. Uma injustiça histórica, garante Mariana, já que o grupo dos africanos livres “contribuiu demasiadamente para a região”.