Nasa/ISS

A Estação Espacial em órbita. É para lá que vai o experimento dos alunos

Eles são alunos do ensino fundamental e vivem olhando para o céu. Não são distraídos, são cientistas mirins que desenvolveram um projeto que agora vai ganhar o espaço sideral.
Guilherme Funk, Laura D’Aamaro, Lorenzo Morrisson, Natan Cardoso, Otto Garbaka e Sofia Palma de Ávila Reis formam são alunos do Dante Alighieri, tradicional escola de classe média alta, num bairro nobre de São Paulo, e do Perimetral, escola municipal, em Paraisópolis, uma das maiores comunidades paulistanas.

Juntos, inventaram uma espécie de cimento ecológico que vai ser enviada para o espaço. As amostras do material serão mandadas de foguete à Estação Espacial Internacional, ISS, e serão testadas pelos astronautas da plataforma. Daí por que os meninos e meninas levantam o olhar para o cosmos.

Antes de chegar a esse ponto, os estudantes participaram do Programa de Experimentos Espaciais para Estudantes, uma iniciativa do governo norte-americano em parceria com a Agência Espacial Norte-Americana, a Nasa e disputaram com outros 71 grupos de escolas públicas e do próprio Dante Alighieri. Foi a primeira vez que alunos sul-americanos concorreram.

Divulgação/ Dante Alighieri

Esses carinhas aí querem testar um cimento espacial

Essa participação só foi possível, porque houve um facilitador. O engenheiro espacial Lucas Fonseca, diretor da Missão Garatéa, que, junto com a Câmara de Comércio Brasil-Flórida, viabilizou o projeto no Brasil. Antes da disputa propriamente dita, 330 alunos de escolas paulistanas participaram de um projeto que durou nove semanas e levou a eles informações sobre o espaço, a ausência de gravidade, o método e a pesquisa científica, e outras credenciais para despertar o cientista adormecido, ou nem tanto assim, em cada um deles.

Fonseca já tinha uma bo vivência nessa área, porque coordena o Garatéa-E, uma proposta que promove vôos de balões de alta altitude para testar experimentos de alunos de escolas do Brasil todo. Daí para o Garatéa-ISS, que vai mandar o experimento dos meninos e meninas do Dante e do Perimetral para o espaço, foi um pulo. “Já tínhamos esse contato prévio com várias escolas e foi mais fácil trazer nossos parceiros. Por conta desses parceiros, chegamos na escola EMEF Perimetral de Paraisópolis, e na ONG projeto Âncora de Cotia. Uma vez estabelecido o contato com os responsáveis, a atenção dos alunos foi a parte mais fácil. Como costumo falar, espaço atrai crianças de 7 à 70 anos de idade”, brinca o engenheiro espacial.

Depois daquelas nove semanas de preparação, os adolescentes discutiam os temas e chegavam com ideias. Tutores envolvidos até orientavam, mas as propostas vieram mesmo dos alunos, assegura Fonseca.

E desde quando jovem pensa sobre ciência e experiência para mandar para o espaço. O engenheiro conta que incentivar os meninos a investigar é um dor objetivod dessa missão. Embora o espaço seja naturalmente encantador. Quando os estudantes chegam aos 12 ou 14 anos de idade, perdem um pouco da curiosidade e do prazer de descobrir. E a ideia, então, é trazê-los de volta para a aventura da ciência. “O mais interessante nesse projeto foi acompanhar a evolução do interesse dos alunos pela atividade. Se a maioria já era curiosa com a oportunidade, uma parte maior ainda saiu encantada com a temática do espaço”, afirma. E tem mais notícia boa: “Percebemos mudanças no desempenho dos alunos nas matérias básicas de ciência da grade curricular, o que nos faz acreditar no grande potencial desse modelo de projeto”.

Dos 72 projetos que se inscreveram, três chegaram a final. Um sobre os efeitos da microgravidade sobre o sangue conservado para transfusão sanguínea; outro sobre a intervenção do tungstato, um composto de tungstênio, no desenvolvimento de bactérias em microgravidade; e o terceiro, que vai testar o cimento espacial na ISS.

Nasa/ ISS

E esse é um dos astronautas que vai testar o cimento verde

Para defender o projeto, os alunos alçados a pesquisadores-júnior seguiram a metodologia científica do começo ao fim. Pensando numa possível ocupação humana em outros astros diferentes da Terra, bolaram um material que possa ser usado em construções extraterrestres e desenvolveram um cimento feito de plástico ecológico.

Em entrevista à Folha de São Paulo, no dia 14 de dezembro, Lucas Fonseca disse que “O pó de plástico verde é um ótimo escudo contra a radiação, um dos principais problemas que temos no espaço”. Para melhorar, essa é uma substância que já existe na estação espacial, porque a impressora 3D de lá utiliza justamente esse plástico como matéria-prima. Exatamente o que os meninos querem testar? A hipótese que vão trabalhar é se o cimento vai solidificar adequadamente num ambiente de microgravidade. “Se funcionar, podemos começar a pensar na possibilidade de utilizá-lo”, sugere Fonseca na entrevista à Folha.

Independentemente do resultado, a força do projeto é colocar os adolescentes diante do pensar e do fazer científico, que é trabalhoso e prazeroso e que faz avançar o conhecimento de forma colaborativa.

Projetos assim podem despertar uma certa vocação científica nos estudantes. Podem, como acredita Fonseca, “garantir a manutenção da ciência no Brasil com uma nova geração de pesquisadores”. Quando se apresenta a ciência à vera para os adolescentes, eles se conscientizam da importância das pesquisas e, principalmente, de como esse caminho é divertido. Ato contínuo, o gosto pela ciência brota e, se for cultivado, permanece.