O sistema de encriptação do bitcoin pode ser pivô de uma nova e profunda mudança tecnológica

Paulo Victor Ribeiro

Tapscott: blockchain é caminho sem volta para uma 4ª revolução tecnológica

A internet recentemente entrou em colapso com o crescimento do bitcoin. A moeda digital teve uma valorização de 1000% no último ano e tem causado muitas discussões na mídia e na economia. O fenômeno das criptomoedas tem movimentado o mercado da especulação financeira, mas para Don Tapscott, palestrante canadense que veio à Campus Party Brasil 2018, essa não é a parte mais interessante dessa novidade.

Tapscott é escritor, curador do Fórum Econômico Mundial e referência em estudos da internet há mais de 30 anos. Conhecido como “papa do blockchain”, fundou o Blockchain Research Institute, centro de estudo e aprimoramento da tecnologia. Segundo ele, o blockchain, sistema de encriptação em que se baseiam as moedas digitais, é não somente uma ferramenta para um novo molde de economia, mas também um caminho sem volta para uma 4ª revolução tecnológica. Depois da era da internet de informação, chegou a hora da internet de valor.

A primeira fase da internet se baseia na cópia e distribuição de informações. Por exemplo: ao enviarmos uma foto por WhatsApp, o que nosso destinatário recebe é uma cópia da foto original. Porém, em 2008, ano da crise financeira mundial que abalou o mercado especulativo, Satoshi Nakamoto registrou o bitcoin e publicou seu manifesto, criando um modelo de transferência de propriedade digital. Mas como?

O blockchain (cadeia de blocos, em inglês) é um sistema de verificação e ordenação de transferências. Quando eu envio um bitcoin para alguém, existe um código dentro da rede bitcoin que comprova que aquela propriedade era minha e foi para outra pessoa. Esse código vai para um bloco gerado a cada dez minutos que contém todas as transferências do período. O bloco é validado por uma rede de computadores ao longo do mundo todo, os chamados “mineradores”. Eles verificam os blocos, que só são válidos quando têm um código que os conecte com os blocos passados. Assim sucessivamente, uma cadeia de blocos válidos e seguros vai se formando, sendo necessário realizar a desencriptação de todas as transferências anteriores para conseguir violar o sistema. Por se tratar de uma longa e complexa estrutura, ninguém e nenhum computador teve a capacidade de quebrar a cadeia. Ainda.

Tapscott acredita que esse sistema de confiança abre a segunda fase da rede mundial de computadores: a internet de valor. E esse modelo de transações altamente confiáveis e descentralizadas cria um mercado que acaba com “intermediários” de transação, como os bancos e o governo, que monitoram transações, friccionam estruturas e acabam criando barreiras para a riqueza. O sistema é livre e aprimoramentos na estrutura podem e devem ser realizados. Hoje, o blockchain da bitcoin possui uma rede de 20 a 30 vezes mais servidores e computadores do que a Google.

Outra tecnologia presente nas transações feitas por blockchain são os smart contracts, contratos inteligentes, dispositivos dentro de redes de criptomoeda que permitem a garantia de benefícios, direitos e aplicação de penas auto-executáveis. Em vez  de cláusulas, temos linhas de programação que garantem os direitos sem a necessidade de advogados e juízes. Por exemplo, numa hipotética compra online, se houver atraso na entrega, o contrato automaticamente descontaria esse valor do produto, ou caso o produto não chegasse, haveria devolução automática do dinheiro. Por isso, o sistema não registra apenas transações financeiras, quem pagou a quem, mas qualquer tipo de informação estruturada. Registros de terra, matrimônio, propriedade intelectual e gasto energético são alguns exemplos do que pode ser gerenciado digitalmente.

Já existem empresas e pessoas fora do ramo financeiro apostando no blockchain como automatização e criptografia de seus serviços. Um exemplo é a cantora canadense Imogen Heap, que disponibiliza o download de suas músicas apenas em trocas de bitcoin. Dessa maneira, ela ganha mais dinheiro com sua obra e não precisa de gravadoras para distribuição.

Paulo Victor Ribeiro

No Campus Party, anúncio de instalação do Blockchain Research Institute no Brasil

Além de demonstrar os benefícios dessa nova tecnologia e apostar em seu futuro, durante a palestra houve o anúncio do início das operações, em 23 de janeiro, do Blockchain Research Institute no Brasil, primeiro país a receber a fundação fora de sua origem, o Canadá.

Tapscott acredita que esse seja apenas o começo. Se acertar nas previsões, com a possível dissolução das corporações intermediárias, como os bancos e os governos, as relações de trabalho serão muito mais solúveis e existirão empresas sem funcionários, donos ou sequer membros,operando apenas por sistemas de smart contracts. O sonho do economista voa longe: os votos poderiam ser feitos por cadeias de bloco e contratos inteligentes seriam ser realizados entre cidadãos e políticos para cumprimento de promessas eleitorais, criando uma “democracia da confiança”. E seu objeto de pesquisa deixaria de ser apenas mera muleta do que muitos chamam de investimento da moda e se tornaria então, de fato, um instrumento de revolução.