A reforma e a chacina

Francisco Bicudo | 05 de outubro de 2016

Um espasmo borbulhante de raiva subiu pela espinha de Cabralzinho, quando leu nos jornais as notícias sobre a reforma no ensino médio proposta pelo governo ilegítimo. Sentiu que estava escrito ‘otário’ em sua testa. Tinha passado um mês, entre Olimpíadas e Jogos Paraolímpicos, quase sem sair da frente do aparelho de TV, acompanhando aberturas e encerramentos (que deixaram queixos caídos, depois de terem sido anunciados como retumbantes e vergonhosos fiascos), vibrando com os recordes e as medalhas e varando as madrugadas com o controle remoto na mão, olhos esbugalhados pelas poucas horas de sono, para dar conta dos sei lá quantos canais de transmissão das competições, saboreando os ao vivo e aproveitando cada reprise.

‘Faziam contas e projeções, falavam em metas, potência olímpica, legado, cultura do esporte. E acabam agora com a obrigatoriedade da Educação Física nas escolas?”, estourou, sentindo o rosto quente ficar vermelho. Lembrou-se com nostalgia e indignação das aulas da disciplina quando era criança, não só dos jogos, que adorava, principalmente as peladas de futebol, mas dos movimentos, da descoberta do corpo, das regras e até do aprender a perder. “Praticar uma atividade física, além de melhorar a coordenação motora e aumentar a sociabilidade, diminui drasticamente a incidência de doenças como diabetes, obesidade, câncer e acidentes cardiovasculares”, leu em outra matéria publicada pelo mesmo jornal.

Chacoalhou a cabeça, ainda mais incrédulo, ao constatar que as Artes também tinham dançado, ignoradas pela mal ajambrada reforma. Sentiu um filete de suor escorrendo pelo pescoço, coração disparado, a garganta seca. “Como podem pretender fazer isso?”. Pensou imediatamente nos artistas da família – eram vários, tios, primos, irmãos, costuma encontrá-los todos em festas de final de ano –, a perpetuar apreço e tradição bastante antigos pelas sensibilidades do mundo. Tem profunda admiração pela paciência e pelo carinho com que estudam e ensinam tanto Michelângelo quanto grafite e arte de rua. Grifou com caneta colorida, os dedos incrédulos, outro trecho da reportagem. “Dedicar-se a uma atividade artística – seja tocar piano ou aprender técnicas de escultura – faz uma pessoa mais inteligente e melhora seu desempenho em outras disciplinas, como Matemática e Redação”. Completou em voz alta, como se estivesse diante de uma sala de aula lotada: “a arte, senhoras e senhores, nos torna humanos”.

Se existisse um termômetro medidor de temperaturas de revolta, teria certamente estourado quando Cabralzinho avançou na leitura e confirmou que Sociologia e Filosofia também serão limadas do currículo do ensino médio, caso a medida provisória seja aprovada pelo Congresso – ‘e que atrocidade, como tratar de mudanças tão importantes de afogadilho e de forma autoritária, sem consultar professores e especialistas’. São ecos do descabido Escola sem Partido, concluiu, sem pestanejar. ‘É típico de governos ilegítimos. Estrangulam o pensamento crítico, para evitar questionamentos e resistências. Só falta resgatar Educação Moral e Cívica e Organização Social e Política do Brasil. Melhor não dar a ideia’. Ele não tem provas, reconhece, não desenvolveu qualquer estudo mais apurado. Mas são muitas as convicções que carrega – é por essas e outras, aposta, entre reformas descabidas e histerias contra palestras de filósofa de excelência em nossas escolas (‘vão doutrinar os inocentes e indefesos estudantes’), que estamos nos bestializando e brutalizando. A passos largos.

Cabralzinho sente um nó na alma ao observar que parcela significativa da nossa sociedade encara com naturalidade – e concorda – com a anulação do julgamento dos policiais militares que assassinaram 111 presos (oficialmente) no Complexo do Carandiru, em outubro de 1992. ‘Não houve massacre, foi legítima defesa’, bradou Ivan Sartori, desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo e relator do recurso que desfez o que tinha sido feito. ‘Esse julgamento teve, dentre as 111 vítimas, a de número 112. A 112 vítima da chacina foi a Polícia Militar’, fez coro o desembargador Edison Brandão, que também ajudou a anular a sentença condenatória original.

‘É o horror, a barbárie. Estamos aceitando e tolerando a pena de morte’, gritou Cabralzinho, tentando colocar para fora a alucinante raiva que insistia em queimar suas vísceras. A visão ficou turva, sentiu as pernas fraquejarem, cambaleou. Procurou amparar-se na estante de livros. ‘Quem, afinal, se importa com presidiários? São tidos como a escória da sociedade’. A triste constatação fez a cabeça latejar. Os ouvidos zuniam. Pareciam querer explodir, tamanha a pressão. Sentou na cama. Lembrou de Caetano e Gil. O silêncio sorridente de São Paulo diante da chacina. Os pretos, quase pretos de tão pobres. Que são como podres. De fato. Não precisamos de Artes. Nem de Educação Física. Menos ainda de Sociologia e Filosofia. Ninguém é cidadão.

Ainda com a visão embaçada, procurando puxar o ar que faltava, mãos trêmulas e suadas, tateou o criado-mudo, buscando o celular. Precisava falar com a esposa. A náusea que estava sentindo era horripilante.



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