Lara Franciulli tem 17 anos e está ralando para colocar em dia os conteúdos da escola, passados nas últimas semanas. O problema é que ela viajou no Carnaval e esticou mais uns dias e a matéria – do 3o ano do médio, coisa a beça – acumulou.

Mas os pais e professores de Lara nem ficaram decepcionados com o atraso nos estudos. Afinal, a estudante acaba de voltar de Nova York, onde foi como delegada do Brasil para a Assembleia da Juventude da Organização das Nações Unidas, a ONU.

Arquivo pessoal/ Lara Franciulli

Junto com outros 46 brasileiros, num grupo de mais de 1200 jovens de cerca de 100 países do planeta, Lara foi conhecer projetos que estão impactando positivamente a vida da população e foi também debater os problemas do Brasil para pensar em soluções que podem ser tocadas por essa turma, no futuro muito próximo.

Mas a estudante de São Paulo – embora tenha nascido e crescido em Guarulhos, ela mudou para a capital para estudar e dar uma força para a avó – tinha missões pessoais na Assembleia e acredita que fez bonito.

“Eu não fui como palestrante, porque tenho 17 anos e a idade para palestrar é, no mínimo, 28 anos. Fui para debater e aprender principalmente sobre as duas áreas em que atuo mais: educação de qualidade e igualdade de gêneros”, explica enquanto ajeita os óculos e sorri.

Com visível inclinação para a área de exatas e muito estimulada pelos pais, Lara participa de competições e olimpíadas de matemática desde os 12 anos. Já ganhou dois ouros na Olimpíada Paulista e um bronze numa disputa Internacional realizada na Argentina. “Estar entre outros estudantes, do Brasil e do mundo todo, fazendo matemática é, para mim, a perfeita tradução dos melhores dias da minha vida. Então, a cada Olimpíada que eu participava, já me motivava para participar de outras, eu queria estar nesse meio, que é muito estimulante para mim”, conta. Competitiva a guria! “Mas procuro usar isso para o bem. E gosto de trabalhar em equipe, então não sou de atropelar”, garante.

Como também é voluntária numa ONG de educação e reforço escolar que os pais fundaram, Lara começou a frequentar e a levar os alunos da instituição para eventos que motivassem eles a seguir estudando, para se formar e ter uma trajetória da qual pudessem se orgulhar. “Foi assim que levei as meninas mais novas a um evento de empoderamento feminino. Ouvimos varias garotas e mulheres adultas falando das suas carreiras e projetos e de como mulher pode, sim, fazer o que quiser”, lembra.

Arquivo pessoal/ Lara Franciulli

As pontas então se juntaram. Ela que achava tão legal ser uma das poucas meninas nas Olimpíadas e eventos de matemática, começou a perceber que, na verdade, isso era um problema bem complicado para resolver. “As meninas acham que exatas não é para elas. Mas a gente pode tudo, a educação em casa e na escola é que leva a sociedade a achar que matemática é só para homens”, se indigna e continua, “mas isso não faz sentido, eu vi mulheres poderosas da área de engenharia e computação no evento Mind the Gap, vi colegas estudantes brilhando nos cálculos e nos problemas de lógica, então quem disse que não é para a gente?”.

Com esse portfólio sob o braço, Lara tomou coragem e foi para a ONU tratar de igualdade de gênero e qualidade na educação com outros jovens do planeta, são os tópicos 4 e 5 da lista dos 17 objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS) que a entidade pretende implementar em todas as nações do mundo até 2030.

“Fui marcada num post da ONU pela Debaorah de Mari, do Força Meninas, que atua na luta pela igualdade de gêneros. A gente se conheceu num desses eventos de empoderamento feminino e ela me incentivou muito a falar de mulheres nas exatas, como uma ação que leva à igualdade de gêneros”, explica a estudante. Ela tomou coragem e respondeu ao pesado questionário que a ONU aplica para escolher os participantes da Assembleia. Foi difícil traduzir certas questões par o inglês, como dizer, por exemplo, que as meninas desistem de química, física e matemática antes mesmo de achar que podem ser opções de carreira e pesquisa? Lara respondeu e foi selecionada. Depois da alegria, veio o pé na realidade. Muitos cálculos e projeções foram feitas até que a família chegou a um resultado negativo: não teriam verba para bancar a viagem.

Mas tinha uma solução para o problema. “Uma engenheira negra que vi numa palestra contou que o único não que ela aceitou receber foi a negativa para ser piloto de caça e só por causa da altura. Você pensa que ela desistiu? Nada! botou na cabeça que ia comprar o próprio helicóptero e aprenderia a cruzar o céu de São Paulo voando”, brinca Lara. Se mulher, negra e de exatas – ponha num gráfico de dificuldades a serem superadas e vai encontrar uma curva bem ascendente – se dá conta de que pode, a aspirante a caloura de ciência da computação também achou que ia conseguir. Fez uma vaquinha virtual, levantou os fundos e #partiuNovaYork.

Dos 10 dias entre delegações dos quatro cantos da Terra, trouxe a certeza de que as mulheres e a educação – de preferência juntas – são parte da do conjunto universo dos resultados. A busca pelo x, no entanto, continua e voltou mais forte ainda. Lara vai prestar vestibular para ciência da computação “porque é matemática que você ensina para o computador e ela faz mágica, é muito estimulante” em universidades brasileiras, como USP e UFMG, mas também sonha com Stanford, na Califórnia, Estados Unidos. “Também vou continuar com a ONG principalmente para ajudar as meninas a perceberem que elas têm futuro, mas precisam adotar esse projeto e saber que têm esse direito, que é para elas”, completa.

Depois de contar tudo isso, finalmente a repórter desliga o gravador e deixa a aprendiz de Malba Tahan devorar com alegria as berinjelas empanadas do restaurante que serviu de base para a entrevista. “Eu preciso comer e voltar para a aula agora à tarde, tenho lição atrasada”, justifica. A gente entende bem.