A MATEMÁTICA DO FUTEBOL

Francisco Bicudo | 14 de novembro de 2016

Salve, salve, torcedor brasileiro, torcedora brasileira. Estamos iniciando mais uma jornada boleira pela sua rádio Tique-Taca, a emissora que toca a bola, faz a tabelinha e tem o rabo preso só com você! E hoje a partida é decisiva. O Ganhamos nas Urnas, líder isolado do campeonato, 61 pontos, 16 vitórias, 13 empates e apenas três derrotas, joga fora de casa e tem pela frente a experiente, ardilosa e traiçoeira equipe do Vamos Dar o Golpe, vice-líder do certame, 54 pontos, 14 vitórias, 12 empates e seis derrotas. O comentarista Nerval Azedo, imortal das ondas sonoras e sempre rápido nos gatilhos seletivos, me lembra aqui que a fanática torcida do Golpe já realizou seis grandes manifestações de rua para exigir a anulação das seis partidas em que o time do coração foi derrotado. Alegam que atletas adversários fizeram mais gols do que poderiam fazer, pelo regulamento. São as chamadas pedaladas boleiras. O Parlamento da Bola Inquisidora deverá julgar em breve a questão. Impedimentos à parte, no campo e sem artimanhas, a vantagem é toda dos vermelhos das Urnas, que acumulam, desde que se enfrentaram pela primeira vez, em 1920, 138 vitórias contra os amarelos golpistas, que contabilizam 86 triunfos. Aconteceram ainda 92 empates entre as duas agremiações. Sem mistérios, os técnicos já divulgaram as escalações. O time da casa vai a campo num tradicional 4-4-2, que pode se transformar num 4-3-3 quando estiver atacando e num 3-5-2 na defesa. O visitante parece querer surpreender e abandona seu vencedor 4-2-3-1 para apostar num bem fechadinho 4-5-1. O líder tem o ataque mais positivo do campeonato, média de 2,65 gols por partida; a defesa menos vazada, 0,6 gol sofrido por jogo, além de se destacar também nos quesitos chutes a gol, 15,3, em média, e nas faltas recebidas, 28,9 de média. O segundo colocado tem protagonismo nas faltas e golpes baixos deflagrados. São 45 a cada jogo, média elevadíssima e assustadora, principalmente se considerarmos que são 18 pontapés abaixo da linha da cintura, 12 saltos no vácuo com joelhadas laterais, 8 cotoveladas, cinco cabeçadas no peito e outras duas dedadas nos olhos. Os levantamentos mais recentes apontam que, a seis rodadas do final do campeonato, o Ganhamos tem 87% de chances de conquistar o título. Será o pentacampeonato, o quinto caneco seguido. Já as possibilidades do Golpe de alcançar em campo sua primeira taça depois de um jejum de catorze anos são de 7%. Sem contar o tapetão, claro. No tribunal parlamentar, os horizontes são bem mais promissores para o atual vice. O embate de hoje reúne equipes posicionadas em extremos quando observamos as idades dos jogadores. São doze atletas com menos de vinte anos vestindo a camisa vermelha, contra nove com mais de trinta anos atuando com o fardamento amarelo, considerando titulares e reservas.

Cabralzinho arranca bruscamente os fones dos ouvidos e dá um murro na mesa. O jogo nem começou e ele já está arretado e irritado com a overdose de cardinais, ordinais e percentuais metralhados pelos narradores e comentaristas da rádio. Sente-se como se estivesse numa reunião de departamento do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada. De que adianta essa numerologia toda? E se o cara deu trinta passes certos no jogo, mas todos eles de lado, burocraticamente? E se a equipe teve 80% de posse de bola, tendo ficado, no entanto, enrolando e trocando passes inúteis no campo de defesa, apenas esperando o tempo passar, sem chutar a gol durante os 90 minutos? E se o centroavante pegou só três vezes na bola, mas numa dessas oportunidades fez uma jogada linda, daquelas de entrar nas chamadas de todas as mesas-redondas televisivas, deixou dois zagueiros no chão, driblou o goleiro e marcou o gol do título? Números contam histórias, resmunga Cabralzinho. As matemáticas futebolísticas precisam transpirar também personagens, diálogos, enredos, conflitos e clímax. Os dois, três, terceiro, quarto e tantos por cento nasceram com evidente vocação literária. Não se orgulhe de apenas vociferar os números, me conte o que eles significam, pede o desolado torcedor, olhando para o celular ainda sintonizado na rádio, chiando em cima da mesa. Chega dessa história de fria exatidão. #Chateado.

Antes de voltar ao jogo, Cabralzinho decide: quando for ministro da Educação, vai incluir as questões de Matemática no caderno de Humanidades. Na reforma do ensino médio que irá sugerir, promete criar uma grande área transmegainterdisciplinar chamada Matemática Humanista do Futebol. Tudo isso será feito, ele se compromete, com amplo debate público, a representar a vontade popular, sem precisar recorrer a medidas provisórias. Primeiramente… Um pra lá, dois pra cá. É fogo no boné do guarda. Ripa na chulipa, pimba na gorduchinha. A bola ficou pedindo me chuta, me chuta… ele encheu o pé. E que golaço! Aguenta, coração. Fecham-se as cortinas e termina o espetáculo, torcida brasileira.



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