A LUZ E O ESTUPRO

Francisco Bicudo | 30 de maio de 2016

Raspou um graveto no outro. Raspou de novo, com mais força. Continuou raspando, com

paciência e persistência. Sentiu esquentar. Um tiquinho mais. Vermelhidão. Uma fagulha.

Algumas. Deu um pulo para trás, assustado. Segurou firme. Fogo na ponta do galhinho. Saiu

correndo para mostrar para os amigos, entusiasmado. Iluminou a caverna. Afastou o perigo

dos animais predadores. Passou a poder cozinhar a carne da caça. Espantou o frio. Fez fogueira

para sentar em volta, numa roda, e contar histórias. Deixou de viver na escuridão. Que é

sossego. Silêncio. Introspecção. Descanso. Mas é também insegurança. Medo. Desconfiança.

Que ameaças a noite escura esconde? Quem está aí? Que barulho é esse? Pai, pode acender a

luz? Tive um pesadelo. Estou com medo dos monstros.

Depois daquela tempestade assustadora da segunda-feira, dia 15 de maio, que derrubou

árvores, fios elétricos, paredes e telhados e deixou rastro de destruição pelo bairro, ficamos

sem luz em casa por 40 horas. A primeira noite foi tranquila. Resignação. Até certa graça

charmosa. Velas e luminárias com baterias foram acionadas. Malabarismos mil para carregar

os celulares, garantia de comunicação com o mundo lá fora. Paciência. O temporal foi

arrasador mesmo. Vamos aguardar. Mas, inevitável, no dia seguinte o mau humor bateu forte.

Pai, não tem nada para fazer. Sem televisão, sem videogame, sem computador. Não dá nem

para ler direito. E o banho é gelado! Ou de canequinha e balde. Não dá. Subir e descer cinco

andares de escada é um saco. A comida começou a estragar na geladeira. Precisamos armar

esquema de emergência para preservar os alimentos. O pior foi aguentar o descaso e a falta de

respeito da Eletropaulo, que fornecia absolutamente nenhuma previsão sobre a volta de

energia. Uma gravação limitava-se a dizer ‘estamos trabalhando’. Pensei em sair raspando

gravetos e espalhando tochas pelos quartos, sala, cozinha. Não adiantaria. Estamos

eletricamente conectados e dependentes das tomadas. Quando a luz voltou, parecia gol do

Santos em final de campeonato na Vila Belmiro lotada. Urros e comemorações ouvidos de

todos os cantos.

Alívio. Computadores, tablets, videogames e celulares voltaram a funcionar freneticamente.

Explosão de luzes. Precisávamos recuperar o tempo perdido. Sinais da modernidade. Ou da

pós-modernidade. Já não sei mais em que tempos vivemos. Holoceno? Antropoceno? Nova

Idade das Trevas? Nosso tempo é a urgência. O imediato. A aceleração. O tudo aqui e agora.

Imediatamente. O exagero luminoso nos cega. Não nos deixa descansar. Nem dormir. Estamos

permanentemente conectados nos mil atrativos de dispositivos móveis e nas infinitas tarefas

que precisamos cumprir. Para ontem. Invadimos madrugadas com só mais um joguinho, só

essa mensagem, só mais uma passadinha pelo facebook. Não desligamos. Na Folha de São

Paulo de 24 de maio, Camila Hirotsu, especialista em sono do departamento de psicobiologia

da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), faz o alerta: “ficar no celular, tablet ou

computador antes de dormir atrasa em mais de duas horas o pico de produção de melatonina,

hormônio que melhora o sono e pode ajudar a prevenir alguns tipos de câncer, como os de

mama e de próstata. O hábito ainda reduz em 50% a produção desse hormônio e aumenta a

sensação de sonolência na manhã seguinte”. Multiplique essa rotina por sete dias por semana.

Trinta dias por mês. 365 dias por ano.

Melhor desligar o notebook. Já é tarde. Lá fora, na rua, a escuridão da madrugada rivaliza com

clarões que pipocam das janelas dos vizinhos. Estão acordados. Também não consigo dormir.

Não é culpa do computador. Não dessa vez. Passei o dia horrorizado e atormentado com a

história da jovem no Rio de Janeiro que foi estuprada por trinta homens. Trinta. No mesmo

dia, um ator que já se divertiu ao confessar e fazer apologia de estupro em emissora de TV,

rede nacional (e foi aplaudido), foi recebido em audiência oficial pelo ministro da Educação,

para defender o 'fim do ensino do comunismo nas escolas'.

Vejo um mundo tão escuro. Tenho medo. Não são os monstros. É o ser humano. Alguém pode

acender a luz?



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