Mariluce Moura | Ciência na Rua

A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), antiga Universidade do Brasil, programara comemorações pelos seus 98 anos nestas quinta e sexta-feira, 5 e 6 de setembro, respectivamente, no Centro de Ciências da Saúde (CCS) e na Praia Vermelha. Em vez disso, os eventos foram cancelados, e a reitoria convocou uma plenária pública para esta quinta, na Quinta da Boa Vista, às 10 horas. Em cena, a luta pelo Museu Nacional e pela Universidade pública.

Dirigentes, comunidade universitária e segmentos que apoiam a universidade
foram convidados para o ato em frente ao prédio do Museu Nacional que, segundo os flyers de divulgação, visa a “alertar as forças democráticas do país sobre a importância dos espaços culturais e da memória do Brasil diante da perda imensurável devida ao incêndio no Museu Nacional”.

O texto acrescenta que a plenária “discutirá a preservação do patrimônio, a liberdade de pensamento e a criatividade científica como valores a serem defendidos e mantidos com autonomia e financiamento permanentes”.

As palavras da convocação certamente respondem a uma perversa exploração política do trágico incêndio que atingiu o Museu Nacional e destruiu a maior parte de seu extraordinário acervo na noite do domingo, 2 de setembro. Ela exploração vai no sentido de desqualificar a universidade pública — responsável, entre outros feitos, por quase a totalidade do conhecimento científico produzido no país — como instituição capacitada a gerir com competência grandes equipamentos culturais e científicos.

Registre-se que, antes mesmo de qualquer conclusão do inquérito sobre as causas do incêndio, rapidamente montou-se e disseminou-se uma narrativa segundo a qual há que se encontrar, com urgência, outros atores, que não as universidades federais, para administrar os museus e outros equipamentos há muito tempo por elas cuidados e que guardam laços profundos com a vocação dessas instituições.

Omite-se, nesses discursos, que justamente a comunidade científica e outros segmentos sociais preocupados com a história, a memória e o desenvolvimento consistente do país, vêm clamando por atenção aos riscos decorrentes dos cortes obtusos de investimentos em educação, ciência e cultura nos últimos anos e denunciando incessantemente os múltiplos efeitos do sucateamento dos equipamentos que sustentam ou dão expressão ao funcionamento dessas áreas.

Uma tragédia verdadeira e não apenas para a UFRJ, mas para o país inteiro, o incêndio está sendo transformado por meio dessa narrativa num pretexto para as crescentes investidas contra a universidade pública e gratuita. O ato na Quinta da Boa Vista deve revelar um pouco mais as entranhas desse estratagema.