A inauguração de uma nova era mais sustentável para o planeta

Paulo Artaxo | 07 de janeiro de 2016

No início de dezembro, 195 países da ONU reuniram-se em Paris para tentar um acordo que possa estabilizar o clima de nosso planeta e evitar que o aquecimento global em curso o desestabilize.

A emissão de gases de efeito estufa pela queima de combustíveis fósseis ao longo dos últimos 150 anos mudou a composição da atmosfera de nosso planeta. O aumento das concentrações de alguns gases, tais como o dióxido de carbono e o metano, fez com que nosso planeta tenha se aquecido cerca de 1 grau centígrado ao longo desse tempo. A ONU coordenou um esforço diplomático para que um acordo que reduza as emissões de gases de efeito estufa fosse assinado nesta reunião de Paris, depois de várias reuniões ao longo dos últimos anos não terem sucesso.

O Acordo de Paris, que é o resultado da chamada COP-21, é sem dúvida um excelente início de uma nova era em nossa sociedade global. Energias renováveis tomarão o lugar ocupado hoje pelos combustíveis fósseis. Demorou 21 anos de reuniões para este passo, mas agora entramos em uma nova era em termos de sustentabilidade do clima de nosso planeta. Entretanto, o desafio que temos pela frente é enorme.

A adaptação ao novo clima nos países em desenvolvimento será difícil e cara, e irá requerer esforços importantes de todos. Precisaremos de um forte esforço científico para entender os processos em mudança nos vários ecossistemas e desenvolver estratégias de minimização dos impactos ambientais. Nossos sistemas de produção e uso de energia, bem como os níveis de consumo terão que ser revisados para níveis sustentáveis.

Com os atuais compromissos de redução de emissões de gases de efeito estufa dos 195 países no Acordo de Paris, nosso planeta pode atingir 3 graus de aquecimento ao longo deste século, o que é uma profunda e rápida alteração no funcionamento dos ecossistemas e terá impactos socioeconômicos enormes.

O conjunto dos compromissos de redução de emissões consiste em cortes de emissões de cerca de 40%. Precisaríamos de reduções de emissões de 70 a 90% se quisermos realmente limitar o aumento da temperatura em 1.5 a 2.0 graus ao longo deste século. Teremos que cortar as emissões de modo mais intenso e mais rápido. É também necessária a estruturação de um sistema de governança global para acompanhar a implementação das INDCs em cada país, e recomendar revisões periódicas, até que nosso planeta consiga estabilizar as concentrações atmosféricas de CO2 e reduzi-las a níveis aceitáveis. Isso não será tarefa fácil e levará várias décadas para ser implementado.

A questão crucial que temos que resolver é global e depende de cortes de emissões por todos os países, especialmente os países desenvolvidos. O Brasil se comprometeu com reduções de 42% nas emissões em 2030 comparado a 2005. Os Estados Unidos se comprometeram a reduzir somente 27% de suas emissões, sendo que é o país que mais emitiu gases de efeito estufa ao longo do último século. Tem que haver equidade entre os países tanto nas emissões quanto no padrão de consumo dos recursos naturais globais. Todos terão que fazer um esforço maior do que o prometido até o momento, e no caso brasileiro, reduzir ainda mais o desmatamento da Amazônia e investir fortemente no aproveitamento de energia solar e eólica que são abundantes, particularmente no nordeste brasileiro.

Também temos que fazer um forte esforço no desenvolvimento de energias limpas. O setor de transporte, por exemplo, terá que ser reestruturado, pois nossos carros e ônibus são extremamente ineficientes no uso de energia. O custo desta transformação global é grande, e não pode ser pago somente por países em desenvolvimento. Um fundo com recursos da ordem de 100 bilhões de dólares anuais foi discutido, mas ainda precisa ser implementado. A ajuda aos países mais vulneráveis precisará ser priorizada, especialmente em um mundo com mais de 8 bilhões de pessoas com necessidades essenciais de água, energia e recursos naturais em geral.

Vivemos em um planeta único e o meio ambiente não conhece limites políticos de cada país ou fronteiras. A atmosfera é compartilhada por todos os seres vivos em nosso planeta. Na história de nosso planeta, esta é a primeira vez que uma única espécie (nós, Homo sapiens) adquire a capacidade de alterar a composição da atmosfera. O desafio de implementar a necessária governança climática global é enorme, mas terá que ser feito. Este é o próximo passo que deverá ser discutido e implementado ao longo das próximas décadas. Teremos que usar os recursos naturais de nosso planeta de modo mais inteligente. Temos que sempre lembrar que os recursos naturais de nosso planeta são finitos, e devem ser compartilhados por todos com equidade.


Paulo Artaxo é físico da USP e membro do IPCC- Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas



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