Texto publicado originalmente na Revista Giz, do Sindicato dos Professores (Sinpro-SP)

Por Elisa Marconi e Francisco Bicudo

Diz a tradição popular que, após o Dia das Bruxas, vem o Dia de Todos os Santos. Talvez essa seja uma boa maneira de explicar o que aconteceu no vão livre da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP), em 1º de novembro último. Ou, ao menos, foi uma tentativa de espantar alguns fantasmas e propor a chamada “Construção da Resistência” – que, aliás, dava nome ao encontro.

Marcado primeiro para a sala 14 do prédio principal, o debate entre os professores Marilena Chauí, André Singer e Vladimir Safatle mudou de lugar outras duas vezes, antes de se assentar no vão livre, onde – entre rampas e pátios – cerca de três mil estudantes e professores se apertavam, ombro a ombro, para ouvir e ver os palestrantes, estoicamente sentados em carteiras, apoiados por colegas de departamento e dividindo um microfone e uma caixa de som.

Assim que a acomodação se deu, o sociólogo Ruy Braga, professor de Ciências Sociais da universidade e uma espécie de mestre de cerimônias, explicou que o evento já figurava como duas vezes maior do que um encontro que acontecera na segunda, 29/10, dia seguinte ao segundo turno da eleição – e anunciou e profetizou que, na semana seguinte, a ideia era organizar outro ato, maior ainda. Em seguida, apresentou os palestrantes e passou a palavra a Singer. O segundo a falar foi Safatle; por fim, Marilena concluiu as provocações.

A seguir, você pode acompanhar um breve resumo das falas intensas dos professores sobre como a sociedade deve se fortalecer para enfrentar um governo que, sim, foi democraticamente eleito e carrega essa legitimidade, mas que também já deu pistas de não ser muito afeito à ideia de democracia, aos direitos dos trabalhadores, à educação que liberta e aos direitos humanos que protegem todos os cidadãos.

Elisa Marconi

Singer e Safatle diante da multidão na FFLCH-USP

 

ANDRÉ SINGER

“Quando fui convidado para fazer essa fala, aceitei e me preparei para conversar com uma centena de pessoas ali na sala 14. Não sou muito bom com comícios e nem meu tom de voz permite, mas vamos adiante. Trago três notícias para vocês. A primeira é uma análise pós-eleitoral e acho que, apesar de tudo, é uma boa notícia. A segunda é sobre o ponto em que estamos e, nesse caso, acho que não é muito alvissareira. Por fim, a terceira é o que podemos fazer a partir de agora e, sou otimista, trago boas notícias.

Primeiro, fazendo a análise desse segundo turno, é importante entender que para o eleitor é muito nítida a diferença dos dois candidatos que disputaram o segundo turno. As pessoas sabem, sim, a diferença entre as duas ideias. Os dez pontos percentuais que separaram o segundo do primeiro mostram exatamente isso. Além disso, a queda da diferença do primeiro para o segundo turno apontou um movimento para cima e crescente de eleitores que defendem a Democracia. Esse movimento existe e não é em hipótese alguma imaginário como querem nos fazer acreditar. É mais ou menos metade contra metade. E metade dos eleitores entenderam que uma das candidaturas traz um risco verdadeiro, concreto, de perda da condição democrática, conquistada duramente de 1988 para cá. Os trabalhadores, principalmente, sabem que na democracia está sua única chance, sua única garantia e que essa condição está, de fato, em risco.

Nessa avaliação eleitoral, cabe dizer que seria um erro avaliar que os 57 milhões de brasileiros que votaram em Jair Bolsonaro são fascistas. Não são. Há, entre eles, alguns fascistas, sim. Esses grupos cresceram e conseguiram eleger um presidente, mas são uma parte pequena no conjunto. O que temos é uma crise econômica. O Brasil vive uma crise econômica que o presidente Michel Temer não deu conta de resolver. Os eleitores votaram fundamentalmente contra essa crise. Uma parte menor é eleitora mesmo de Jair Bolsonaro. O restante, a maioria, ou vota contra a crise, ou vota contra o PT.

O que devemos fazer então? Isolar essa minoria, separar, não deixar crescer. Há, acreditem, uma parcela que não fazia ideia do que era o projeto de governo do Bolsonaro. E quando descobrir vai ser um problema. É a essas pessoas que devemos nos ater, trazer para o outro lado e constituir o que estou chamando de nova maioria.

A segunda notícia é o que vem por aí e, como já adiantei, não são boas notícias. O que já podemos dizer é que o projeto que vai se instalar é de natureza autoritária, sim. As falas de Jair Bolsonaro não são apenas declarações de campanha. São propostas e vão ser implementadas. O padrão Moro, que todos conhecem bem pela Lava Jato, será implementado porque ele aceitou ser ministro e vai impor essa forma de agir. Tanto Moro, quanto o presidente eleito, pagarão o preço de tirar essas ideias do plano das intenções e de trazer para a realidade esse governo de natureza repressiva. E não se espantem, porque a universidade certamente é o primeiro lugar a ser combatido. A invasão de 30 universidades pelo país deixa essa fórmula bem evidente.

A terceira notícia volta a ser boa: o que dá para fazer? O que está acontecendo aqui já responde. Todos nós sabemos que somos a última barreira contra o fascismo, um dique de contenção do autoritarismo. Nós temos a clareza disso. Também é importante lembrar que as instituições estão divididas. Nem todas são de extrema direita e acho mesmo que a decisão do Supremo Tribunal Federal de não permitir a invasão da universidade pelas forças repressivas não é casual, não é à toa. Então, vejo uma polícia dividida, juristas divididos, autoridades divididas. Nós temos de saber entender isso e aproveitar.

Mas nada, nada mesmo, acontece se a sociedade não estiver mobilizada. Por isso, o que temos de fazer é uma frente democrática ampla, massiva, se não vamos perder. Os partidos que ainda resistem são um problema – mas na universidade, estamos no campo dos problemas mesmo. Mas, vendo a sociedade em peso mobilizada, partidos vão se somar a essas forças de uma frente que começa a ser concreta.

Para fechar, como ouvi num encontro com a Associação Nacional dos Docentes do Ensino Superior, se o inverno é deles, a primavera será nossa!”

E o que a gente deve fazer com o medo que nos acompanha, que sai de casa com a gente? Como cada um pode cuidar do medo?

“Gosto de lembrar das Comunidades Eclesiais de Base da Igreja Católica. Hoje a igreja mudou e as CEBs perderam a vitalidade. Então vou propor que a gente funde as comunidades democráticas de base. Temos de construir comunidades em cada local de trabalho, em cada local de estudo e em cada família. Como combater o medo? O único jeito que conheço é se juntando aos outros. Se juntando, se associando, nunca estando sozinho. A partir daí, e da escuta, construir uma unidade a partir das diferenças. É esse sempre o segredo. Gramsci dizia que o grande problema da classe trabalhadora é sua unificação. O resto é secundário.”

 

VLADIMIR SAFATLE

“A situação que vivemos agora, que a marcha da História nos trouxe, já aconteceu antes e em outros tempos e lugares. E, o que aprendemos é que, se soubermos agir de acordo com a gravidade do momento, poderemos ser os vencedores. Objetivamente, temos um neoliberalismo brutal e um regime com características fascistas. Não somos 57 milhões de fascistas. A maioria dessas pessoas não é fascista, mas é contra tudo o que está aí. E a esquerda não conseguiu criar um discurso e trazer para si esses inconformados. Outra parcela é anti-PT, que será responsabilizada por trazer de volta aquilo que imaginávamos já estar resolvido, os piores fantasmas da ditadura. Serão responsáveis também pelas violências que serão fatalmente cometidas contra setores da população.

Quais são os riscos que corremos? O programa econômico do governo eleito é um projeto falimentar e a população logo vai entender isso. E vai reagir. O que este governo quer? O estado permanente de crise, porque só a crise justifica uma ação mais repressiva e autoritária, que está na agenda desse governo. E, enquanto todos ficam de olho nas sucessivas crises, o governo pode dar continuidade a seus experimentos de desmonte econômico, sem que ninguém dê muita bola ou possa agir. Reparem como a cada bravata, faz-se uma força tremenda para explicar que não é bem assim e, enquanto isso, medidas são tomadas e impostas. Isso não é e não será acaso no governo que vem por aí. É uma estratégia.

O que podemos fazer? Participar, lutar, resistir, mas nunca sós. Nenhuma grande criação aconteceu sem que, antes, houvesse um enorme sentimento de desamparo. Por isso nos sentimos assim. Mas essa luta veio ao nosso tempo, para ser lutada por nós. E ela vai durar, porque nós vamos lutar por um país mais livre e mais justo.

Mas não podemos fazer isso sozinhos. Nosso sistema de defesa é mobilizar, mas não temos sequer uma democracia rudimentar. Por isso, o jeito é juntar. Juntar e ouvir. Ouvir o que a sociedade tem para dizer, os grupos, as pessoas. Quando a gente abrir para isso, vamos nos surpreender com nosso poder de criar. E sabemos que não podemos falhar, porque se falharmos são nossos filhos e gerações inteiras que vão pagar.”

 

MARILENA CHAUÍ

“Tomo a liberdade de trazer duas reflexões. A primeira trata do passado, que foi de 1964 e 1968 e, depois, até 1975. E, depois, trato dos movimentos de resistência, de invenção, de criação e de possibilidade concreta de atuação de movimentos sociais, populares, de organizações de trabalhadores e de sindicatos. No correr desse processo, o que vejo são instantes de democracia, esperança e liberdade no Brasil.

O primeiro momento que trago é de alerta. O segundo, de proposta. No primeiro momento, medo não era uma palavra, um acidente, ele formava o tecido da vida cotidiana. O medo de não voltar para casa; de voltar e não ser como antes; de que alguém sumisse, fosse torturado ou morresse. Isso era o cotidiano. Era o terror no rosto dos operários e dos moradores da periferia, onde agiam as milícias, uma forma bem fascista de atuar. Uma estatística aponta que apenas 25% dos eleitores de Bolsonaro são eleitores dele. Os outros foram se associando. Essa política age no interior das comunidades e não como ação pública do Estado, como política de Estado. Quando Temer assina decreto que reascende aparatos policiais que achávamos já estar no passado, precisamos estar preparados para o que já aconteceu como drama, não volte como tragédia.

A segunda experiência que trouxe para relatar vem na forma de ideias e lições. E é simples: a resistência precisa se dar na forma de organizações institucionais. O mundo do Twitter, das manifestações individuais, do voluntarismo pelas redes sociais acabou. A espontaneidade e o voluntarismo acabaram. Agora, o processo é lento e precisa das instituições que organizam as massas. Não tem individualismo. A resistência se dará por grupos. Grupos institucionais de pensamento e ação.

Manifestações espontâneas a cada 20 dias, mais do que resistir, expõem as crises – e se expor assim é um presente para eles. O governo novo precisa da crise para governar e nós precisamos justamente mascarar a crise e não entregá-la de bandeja. É isso que eles esperam de nós e não podemos entregar assim de mão beijada. Por isso, nosso trabalho será como o trabalho lento da toupeira, que cava buracos no interior da terra, nos subterrâneos. Vamos como organizações institucionais, mas lentamente e sem exposição. Pode parecer novo para a população, mas é o necessário agora.

Quem está aqui deve servir como referência de pensamento. As pessoas devem se agrupar e entender os passos que podem e devem dar. O papel da universidade nesse ponto não é ensinar nada, é mostrar a cada um o quanto ele pode aprender e fazer, criar e resistir. Tudo coletivamente. É papel da universidade também ouvir, reaprender a ouvir, e, a partir do que escutou, aprender. Nossa resistência é o próprio caminho para cada passo irredutível.

Nossa sociedade foi fundada no mito da não violência, como se fôssemos um povo cordial e acolhedor. Na verdade, somos escravocratas, misóginos, até xenófobos em algum grau. E precisamos olhar para essa nossa constituição. Li que o que faz o tirano ter mil olhos para vigiar, mil ouvidos, mil mãos para esganar e mil pés para esmagar somos nós mesmos. Ele, sozinho, é um humano como nós, mas se nós entregamos nossos ouvidos, olhos, mãos e pés a ele, achando que bem servido ele se acalma, vamos, na verdade, fortalecê-lo e alimentá-lo. É a servidão voluntária que não pode acontecer de jeito nenhum. Por isso, nossa resistência precisa ser lenta, cuidadosa e organizada. E nós venceremos, porque do nosso lado estão a amizade, a liberdade, a esperança, a criação e o pensamento”.

E como o professor de escola particular e pública deve agir e reagir agora, já que ele acorda com medo e vai dar aula com medo?

É um momento difícil porque foi instalada a delação. Alunos descontentes por qualquer motivo fazem uma delação que acarreta perseguição ou punição ao professor. A segunda coisa complicada é a ideia de que já estamos com a famosa Escola sem Partido, que, portanto, é preciso impedir o professor de dizer aqui que ele preparou como aula e forçá-lo a dizer o oposto daquilo. Ao lado disso, há a violência das milícias e a violência policial. Por isso, é importante repor a organização na forma de movimentos e associações.

O professor deve então se associar para se proteger?

Ele não pode ficar sozinho nunca. Tem sempre que estar associado. Isso foi a chave para nós nos anos 1980. A chave é institucionalizar o agrupamento e nunca permanecer sozinho e nem ter ações espontâneas. Tem de ser junto e pensado.