A cabeça do torcedor

Francisco Bicudo | 15 de maio de 2016

torcedor - cabeça de torcedorLi a escalação do time no jornal. Uma lástima. Só cabeça de bagre. Como foi que essa diretoria conseguiu juntar tantos jogadores ruins numa equipe só? Não passo nem perto da televisão. Não quero ver esse jogo. Pega ali o controle remoto, por favor. Vai começar. Eu sei, tinha dito que não ia ver, mas vai que… senta aqui do meu lado. São nossos lugares da sorte. Peloamor, o que é isso, já? Dois minutos e a bola passa raspando na nossa trave? Começou cedo. Tragédia anunciada. Toca, toca, toca. Vira o jogo. Lá na esquerda. O lateral está passando sozinho. Não, não aí. No meio está todo mundo marcado. Jogador de futebol não pensa? Não enxerga? Não tem cérebro? Não consegue raciocinar? É tão fácil. Faz o básico, moleque. Chega de firulinha e lance de efeito. Faz o arroz com feijão. Já está de bom tamanho. Muita chuteira colorida, marra  e cabelo moicano. Pouco futebol. Peraí, tem alguma coisa errada aqui. Está usando sua camisa pé quente? Aquela das finais? Dos títulos? Não pode mudar. Não se brinca com a sorte. Nossa, olha lá, que jogada linda. Que passe espetacular. Sabe tudo de bola esse garoto. Vai, rasteira, no cantinho do goleiro… UHHHHH! Opa, já sei, lembrei, está faltando aquela tradicional cerveja gelada de todas as pelejas. Sempre me acompanha. Faz parte do ritual mandingueiro vencedor. Vou lá pegar na geladeira. Mas o jogo ficou chato, né? Cansativo. Paradão. Ninguém ataca, só chutão , estourão e bicão para cima. A gente precisa ganhar para encostar lá na zona de cima da tabela. Se perder? Vira essa boca para lá. Sem mau agouro, caramba. Bate aí na madeira. Mais forte. Três vezes. Eita, os caras estão melhorando, dominando a partida. Olha lá, o centroavante deles sozinho. Encosta. Marca. Zagueiro imbecil, como pode levar um drible desses? Rolinho no meio das pernas. Ficou estatelado no chão, não viu nem a cor da bola. Técnico burro, tira esse cara. Burro. Substitui. Agora. Não dá mais. Aliás, faz melhor, manda esse traste para algum outro time. Qualquer um. Menos o meu. Não aguento mais. Já deu. Outro chute perigoso, que passou raspando a nossa trave. Sai, zica. Arruma esse time, professor. Que bagunça, um amontoado de perebas correndo em campo feito baratas tontas. Eu sabia que não devia ver essa pelada. Pura perda de tempo. E agora esse zagueiro irresponsável resolveu se aventurar no ataque? Volta, rapaz. Se atrás você já é limitado… Opa, ganhamos escanteio. Quem sabe numa bolinha parada salvadora. Capricha. Está livre, está livre… sobe… testada… sobrou… rebote… de carrinho… GOL! GOLAÇO! QUE GOLAÇO! Foi de quem? Ali na confusão na área não vi quem tocou por último. Foi do zagueiro? Foi do nosso zagueiro artilheiro? Sempre acreditei no potencial desse garoto. Espana, às vezes, mas tem talento. Acabei de xingar o cara? Imagine, foi só desabafo. Faz parte. É o calor do momento. O rapaz merece ser convocado para a Seleção. Vamos ganhar esse jogo!

Não há ciência capaz de explicar a cabeça de um torcedor de futebol. Sobram rumores que sugerem que Gregor Mendel – parece que era confesso admirador do futebol bretão – até se animou. Não conseguiu financiamento. Projeto recusado. Desistiu. Optou por continuar misturando ervilhas amarelas e verdes para determinar dominantes e recessivos. Albert Einstein foi desafiado por colaboradores a estudar o tema. Recuou depois de apenas cinco minutos de conversa. Teria dito aos interlocutores ’não dá, é muito complexo. E deus não joga bola’. Quem mais se aproximou da tarefa foi Sigmund Freud. Chegou a anotar alguns rabiscos iniciais sobre futebol e seus torcedores. Jamais publicou esse material. Empacou. Achou mais fácil concentrar as atenções no estudo da sexualidade humana.



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