A beleza invisível da biodiversidade: brasilina e brasileina, a cor vermelha do pau brasil

Vanderlan Bolzani | 29 de maio de 2016

O nome Brasil, acredita-se, tem sua origem na planta taxonomicamente conhecida por Caesalpinia echinata Lam, uma espécie nativa da Mata Atlântica, pertencente a subfamília Caesalpinioideae (ou Caesalpiniaceae), família Leguminosae, mais recentemente renomeada Fabaceae. As fabáceas ou leguminosas são a terceira maior família de Angiospermae (palavra de origem grega, em que angios significa bolsa e spermae, semente) e representam um táxon de grande diversidade em número de espécies, incluído entre mais numerosos do reino Plantae ou Metaphyta.

 

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As leguminosas possuem frutos peculiares e exclusivos chamados de legume, também conhecido como vagem. Por serem  alimentos de grande valor nutricional, algumas leguminosas/fabáceas, como soja (Glycine max), ervilha (Pisum sativum) feijão (Phaseolusvulgaris) e amendoim (Arachis ypogaea L) são muito importantes em todo o mundo e de alto valor econômico. Tal importância levou a UNESCO a eleger 2016 como o Ano Internacional das Leguminosas (The International Year of Pulses) .

Mas voltando ao pau Brasil, o nome popular para C. Echinata, ela foi classificada pelo taxonomista Lamarck, em 1789, que atribuiu o nome em homenagem a André Cesalpino,  botânico do Papa Clemente VII. É uma espécie não menos importante do que as outras do grupo das leguminosas. Árvore de grande porte, medindo em média  10-12 m de altura,  o tronco com diâmetro de 40-70 cm, suas folhas exalam odor floral intenso e agradável. A madeira do tronco é dura, pesada e de coloração que varia do castanho alaranjado ao vermelho escuro (Figura 1) . Tal característica foi uma das razões que atraíram os portugueses colonizadores para o Brasil, e a extração e comercialização  do  pau brasil  pode ser considerada a primeira grande exploração econômica da biodiversidade brasileira. E por que os portugueses se interessaram tanto pela exploração desta espécie?

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Figura 1. Corte transversal do tronco de C. Echinata

Aí está a grande beleza da maquinaria química que cada espécie de planta desenvolveu ao longo do processo de adaptação nos ambientes ondem ocorrem, os produtos naturais. Da madeira do pau Brasil era extraída um corante de cor vermelha intensa, muito apreciada na Europa do século XVI. O produto natural brasilina (1), substância da classe dos catecóis, facilmente é oxidada em brasileina (2), um derivado fenoldienônico, identificado como o corante da madeira da planta. A estrutura catecólica da brasilina (1) é a forma reduzida e incolor de brasileina (2), mais estável devido à extensão da conjugação do sistema dienônico presente na molécula e, portanto, responsável pela cor vermelha que aguçou a cobiça dos portugueses que aqui chegaram.

Um grande produtor do corante era o Ceilão, maior fornecedor da Europa. Não se sabe ao certo quantas eram as espécies de Cesalpínia de onde eram extraídos o corante, mas C. sappan era a espécie explorada no oriente. No entanto, foi a C. echinata, abundante em toda a costa atlântica do Brasil colonial, que atraiu a atenção dos portugueses recém-chegados ao continente americano. Durante o período de exploração econômica do pau brasil, que se estendeu de 1501 até finais do século XIX, a madeira era exportada in natura. As árvores eram derrubadas e cortadas em pedaços de cerca de 2 a 1 metro  que eram transportados para Lisboa, e em seguida, para Amsterdam, local em que a madeira era transformada em pó do qual era extraído o corante.

A importância do pau Brasil na Europa, a partir do século XVI, deveu-se principalmente às variadas tonalidades de cores obtidas da madeira que era tratada com ácido (vinagre) ou fermento. Os artesãos (tintureiros) daquela época obtinham tons de vermelho pela alcalinização do extrato ácido, a partir de que eram gerados os tons arroxeados.

O produto natural 1 e o derivado 2 extraídos da madeira vermelha são os componentes moleculares que dão a coloração vermelha tão apreciada pelos monarcas europeus e podemos dizer que, devido a essa exploração, os portugueses colonizadores praticamente devastaram o pau Brasil de toda a costa atlântica.

Importante salientar que as moléculas não são perceptíveis aos olhos, mas, presentes nas várias espécies da biodiversidade, são valiosas e responsáveis pelo alto valor agregado de inúmeras plantas e de outros organismos de alto valor comercial.

 

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Figura 2. Estrutura de brasilina (1), produto natural isolado de C. Echinata e de brasileina (2), derivado oxidado de 1 e responsável pela cor vermelha do pau Brasil

 

No século XIX alguns químicos importantes realizaram pesquisas sobre o corante extraído do pau brasil. Um deles, o francês, Michel E. Chevreul, isolou pela primeira vez o derivado catecólico 1, dando-lhe o nome de brasilina. Chevreul também trabalhou como diretor do setor de tinturaria da famosa fábrica de tapetes Gobelins. William Perki, químico sintético reconhecido como o criador dos corantes sintéticos, também pesquisou os componentes químicos do pau Brasil. No entanto, a estrutura química da brasilina (1) só foi determinada mais de século depois, pelo prêmio Nobel de química Sir Robert Robinson. Ele levou vários anos de investigação em síntese orgânica, tendo descrito os primeiros dados no artigo publicado em 1906. A síntese da brasilina foi um processo moroso que ficou completo em 1955, e só em 1970 Sir Robinson publicou os dados. Seu trabalho provou inequivocamente as estruturas apresentadas na Figura 2. 
A descoberta e utilização dos corantes sintéticos impediu o total desaparecimento desta bela e importante árvore da nossa Mata Atlântica, o pau brasil.

Referências

  1. Lorenzi, H.; Árvores brasileiras – Manual de Identificação e Cultivo de Plantas Arbóreas Nativas do Brasil, Ed. Plantarum: Nova Odessa, 1992, p. 352.
  2. Bueno, E.; Pau Brasil, Axis Mundi Editora: São Paulo, 2002.
  3. http://www.sbq.org.br/PN-NET/causo7.htm, acessada em Abril 2015.
  4. Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, Academia das Ciências de Lisboa e Editorial Verbo, Lisboa, 2001.
  5. Thompson, D. V., The materials and thecniques of medieval painting; Dover
  6. Publications, New York, 1956.
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Editorial Enciclopédia Lda, Lisboa, 1978.
  7. Livingstone, R., Nat. Prod. Rep. 1987, 4 , 25.
  8. Rezende, C. M., Corrêa, V.F.S., Costa, A.V.M., Castro, B. C. S. – Constituintes químicos voláteis das flores e folhas do pau-brasil (Caesalpinia echinata, Lam.), Quim. Nova, 2004, 27, 414-416.

 

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Vanderlan Bolzani,  é professora do Instituto de Química da Universidade Estadual Paulista (IQ-Unesp), diretora da Agência de Inovação desta universidade (AUIN), membro da coordenação do Programa Biota-Fapesp e vice-presidente da Sociedade brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)



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