Mariluce Moura | Ciência na Rua

A partir das 17 horas desta quarta-feira, 13 de junho, na antessala de seu gabinete de reitor, João Carlos Salles lança Análise & Gramática: mais estudos sobre Ernest Sosa e Wittgenstein (Quarteto Editora, Salvador, 2018). São seis textos dispostos em duas partes, além da apresentação e da conclusão, num percurso de 156 páginas que constituem o novo fruto de um labor filosófico exercido com um talento notável para provocar encontros improváveis, pôr em diálogo vigoroso trabalhos filosóficos de inspiração distinta e, especialmente, para arrancar das sombras a dimensão de obra verdadeira onde outros mais veem fragmentação e dispersão.

Observe-se já o & usado no título, em lugar de um simples e. Desde logo ele indica uma articulação mais profunda entre dois âmbitos, digamos, duas concepções filosóficas –  em uma, Sosa (1940 –) é expoente, na outra brilha a singularidade de Wittgenstein (1889-1951) –, que o autor propõe e explicita nas primeiras linhas de sua apresentação. “Análise conceitual e gramática filosófica se solicitam. Pode parecer estranho, mas não deve ser um acaso que o labor hesitante de Wittgenstein constitua uma contribuição significativa para a filosofia analítica (…)”, ele diz. Completará a frase com o rigor intelectual, mantido a cada passo, que o leva a lamentar, nessa absorção de Wittgenstein pela filosofia analítica, “a transposição brusca, o isolamento estranho de seus argumentos, a ausência de mediações nesse ambiente infenso a frases lacunares e aforismos. (página 9)”.

Na dança de aproximação que gentilmente conduz, dirá que “também o movimento da análise, quando bem feita, não se restringe a enfrentamentos argumentativos imediatos e circunscritos” e por vezes tem o sabor de “uma espécie de terapia gramatical, mesmo quando o próprio filósofo tende a ater-se mais aos resultados alcançados do que ao próprio movimento de elucidação conceitual” (página 9). João Carlos Salles acredita que, em ambos os casos, os filósofos estão num “mesmo universo de procura delicada de condições necessárias e suficientes” da aplicação de seus conceitos, “de sorte que a precisão minudente da análise pode iluminar aspectos da constituição gramatical da experiência e vice-versa”.

A propósito, é altamente recomendável começar a leitura de Análise & Gramática exatamente pela apresentação. Porque, sem ameaçar nem de longe as surpresas do trajeto, as descobertas e, enfim, o prazer do texto prometido por um autor que jamais descura do cuidado intenso com a palavra, como um integrante fundamental mesmo do fazer filosófico, suas quatro páginas e meia se oferecem como um precioso guia de viagem.

Assim, é dado ao leitor saber, por exemplo, que a recepção às obras de Sosa e Wittgenstein, caracterizada, arrisquemos, por fundas incompreensões, é o solo comum do qual se erguem, em reação, os textos de João Carlos Salles. O que talvez o autor, deliberadamente, ali não deixe tão claro, é que suas leituras novas que tais textos trazem à luz, capazes de provocar alguma estranheza até mesmo no filósofo investigado, no caso, Sosa, vão constituindo elas mesmas, a pouco e pouco, um empreendimento filosófico denso e singular (como filósofa não sou, reluto em dizer original). Que implica tanto o desenvolvimento de uma obra marcadamente autoral, na qual se pode vislumbrar sempre novas articulações e costuras entre lógica e experiência, quanto a constituição de um grupo de pesquisa e a construção de um espaço aberto para o fazer filosófico a que, afinal, nas conclusões, o autor faz referência (página 149 e seguintes). É disso que se trata, ao fim e ao cabo.

O método de leitura de João Carlos Salles, ele diz, “não tem muito de gramatical ou de analítico”, não está inteiramente à vontade em nenhum dos dois lados da fronteira e tem como uma marca característica “uma atenção quase detetivesca aos textos, como desejando neles flagrar hesitações, inclinações pouco confessadas e, por vezes, manifestações involuntárias de um contexto teórico (página 10)”. O autor cita de passagem trabalhos que dão mostras desse afã detetivesco, a rigor, evidente desde que restabeleceu com base nos manuscritos originais o texto de Anotações sobre as cores, de Wittgenstein, publicado em edição bilingue pela editora da Unicamp (2009), e ao qual volta neste novo livro fazendo a recomposição de um roteiro de leitura. Há outros traços fortes no método, há referências preciosas sobre os textos que constituem o livro, mas deixemos a descoberta ao leitor (páginas 11 a 13) e escapemos à tentação da cola a cada linha desse atraente texto de apresentação. Arrisquemos o salto.

Dos seis ensaios integrantes do livro, alguns publicados individualmente em periódicos em 2017 e 2018, três lidam com trabalhos de Sosa nas origens de sua epistemologia das virtudes, e três debruçam-se sobre Wittgenstein, tanto o do Tractatus Logico-Philosophicus quanto o da Anotações sobre as cores. O retorno de João Carlos Salles a esse segundo trabalho que, insisto, ele mesmo editou, anotou e traduziu há quase duas décadas, traz uma série de novas contribuições à compreensão e aos desdobramentos dessa “devastadora crítica de Wittgenstein à análise fenomenológica de Goethe” em Doutrina das cores, e expostas tanto no texto de título irônico Para não dizer que não (mais) falei das cores (página 103) quanto em O paradoxo de Goethe (página 131).

Nestes ensaios, o fio condutor que o autor maneja com mestria, levando-nos de Wittgenstein a Goethe e de Goethe a Newton, para por à luz as fundações do longo processo de confronto de ideias e concepções filosóficas que Anotações sobre as cores enfim desvela, mereceria aqui um sem número de citações. Entretanto, por limitação de espaço e para não ser cansativa, fica apenas uma breve sugestão do que espera o leitor nessas páginas.

No primeiro dos dois textos, há a certa altura (página 119) uma afirmação virulenta de Wittgenstein: “Eu não consigo imaginar que as observações de Goethe sobre o caráter das cores e combinações de cores possam ser úteis ao pintor; e mal servem ao decorador”. A partir de que nosso autor continua: “Sendo um corolário dessa denúncia, como veremos, uma frase misteriosa, que apenas esse contexto de confronto com a específica análise de Goethe nos permite escrutinar-lhe o sentido. Afinal, atingindo em particular o projeto da Doutrina das Cores, Wittgenstein pode refletir sobre todo o essencialismo dogmático, do qual ele não deixou de acusar a si próprio, ao perceber no Tractatus uma visão limitada e unilateral de uso da linguagem”. Essa frase misteriosa é, “Embora não haja uma fenomenologia, há decerto problemas fenomenológicos”.

No segundo texto, dá uma boa amostra de por onde segue a leitura de Salles sobre Wittgenstein esse trecho: “Se Goethe pretende ter sido bem sucedido ao encontrar o fenômeno primordial da cor, a matriz da série toda de fenômenos cromáticos, no caso, a cor como uma espécie de confronto da luz com meios túrbidos, o sucesso da análise fenomenológica de Goethe coincide então com seu fracasso, pois não há com as cores fenômeno primordial algum de história natural, como ao contrário talvez haja com plantas e animais” (página 144). E ainda, na sequência: A possibilidade de fazer, ao mesmo tempo, ciência e filosofia, de escrever assim para o filósofo como para o físico, sustentar-se-ia, na Doutrina das Cores, no privilégio concedido ao olhar, ao mais refinado dos instrumentos, lugar objetivo e subjetivo da cor, cifra da natureza enquanto visível”. Sobre cores, segundo Wittgenstein, nos lembra João Carlos Salles, “não aprendemos por olhar”.

Aliás, o fracasso, a possibilidade de fracassar no processo para conhecer, parece um tema muito caro a João Carlos Salles, tanto que tem voltado a ele muitas vezes nos debates públicos sobre o valor de uma instituição pública como a universidade, que inclui a abertura ao fracasso entre suas características fundamentais. A pesquisa em qualquer campo do conhecimento não tem de saída o compromisso de dar certo, avança-se o conhecimento pelos fracassos também, ele tem repetido.

E de certa forma, dois dos ensaios particularmente brilhantes de seu mais novo livro trazem francamente ou tangencialmente o tema do fracasso. O primeiro deles, para ficar ainda em Wittgenstein, é Sobre Inefáveis (página 83), originalmente preparado como palestra de encerramento do XI Seminário de Pesquisa Estudantil em Letras da UFBA. Permita-se o leitor esse extraordinário mergulho propiciado pela apresentação aos estudantes do móbile constituído pelos sete aforismos do Tractatus:

“Como uma teia de aranha a mal sugerir a forma de um palácio, a linguagem seria ela mesma a raiz do fracasso, caso aceitemos a interpretação mauthneriana da filosofia como crítica da linguagem, isto é, como crítica das insuficiências ínsitas de qualquer linguagem. Com efeito, a expressão em uma linguagem, a fixidez do registro, tão necessária à ciência, parece fatal para a verdade do expresso. Por essa via crítica, que não é a de Wittgenstein, a linguagem é condição necessária da ciência, mas sempre condição suficiente de erro” (página 85)

E apenas mais uma sentença com ineludível vocação para epígrafe: “Fracassa a linguagem por ser fugaz, por se perder na conclusão de uma fala, mas é perda ainda maior caso perdure”.

O segundo texto, A versão de análise em “Propositional Knowledge”, é um primor de demonstração da marca detetivesca dos textos do autor, ao mesmo tempo em que mobiliza todas as suas ferramentas de análise, gramática filosófica, historiografia e genealogia, numa busca que vai passo a passo se aprofundando  nas origens da epistemologia das virtudes de Sosa, desde seu primeiro tratamento do problema do conhecimento em Gettier, a despeito das sombras a que ele irá relegá-lo nos anos subsequentes de evolução de seu trabalho. Sosa, para Salles, é senhor de uma obra com corpus teórico de vitalidade incomum, sem partes descartáveis, e assim ele a toma nesse texto que o acompanha até 1980, na verdade parte de um projeto de longo prazo dirigido ao conjunto da obra do filósofo.